Antes de virar nome de livraria e duas vezes finalista do Jabuti, Ale Santos encheu o Twitter de fios sobre reis, rainhas e revoltas que o currículo escolar brasileiro costuma cortar no meio. O que começou como thread virou livro, romance distópico, HQ da Ubisoft e uma das vozes mais buscadas do afrofuturismo no país.
Quem pesquisa o nome quer encaixar peças soltas: Rastros de resistência, O último ancestral, o handle @savagefiction, Belém. É a mesma pessoa. Alexandre de Oliveira Silva dos Santos nasceu em Cruzeiro, no interior de São Paulo, em 1986, cresceu no Morro do Itagaçaba e, desde 2023, vive em Belém, no Pará. A carreira pública dele mistura ficção científica, história negra e uma teimosia rara: tratar futuro e ancestralidade como o mesmo assunto.
Quem é Ale Santos e por que o nome aparece tanto
Ale Santos é escritor, roteirista, podcaster e comunicador digital. A Science Fiction Research Association (SFRA) o citou como o autor afrofuturista mais popular da nova geração no Brasil. Dois livros chegaram à final do Prêmio Jabuti: Rastros de resistência, na categoria Ciências Humanas, em 2020, e O último ancestral, na categoria romance de entretenimento, em 2022. O romance também foi finalista do CCXP Awards.
O recorte que o diferencia de um perfil genérico de “autor de ficção científica” é o chão brasileiro. As histórias passam por favela, carnaval, religiões de matriz africana, periferia e um futuro em que tecnologia não veio para apagar o terreiro. Quem chega pela literatura encontra menos catálogo de gêneros e mais um projeto de reconstruir o imaginário do país.
- Nasceu em Cruzeiro (SP), em 1986, e cresceu no Morro do Itagaçaba
- Finalista do Jabuti em 2020 e 2022
- Finalista do CCXP Awards com O último ancestral
- Vencedor do Prêmio Sim à Igualdade Racial 2020, no pilar Representatividade em novos formatos
- Citado entre as 100 personalidades negras mais influentes da lusofonia pela BANTUMEN, em 2022
- Roteirista de La Bestia, HQ brasileira da série Assassin's Creed: Visionaries
De Cruzeiro ao Twitter: quando o fio virou livro
Aos 12 anos, uma professora apresentou a Ale Santos os clássicos de fantasia e ficção científica. Sherlock Holmes, Conan e os cavaleiros da Távola Redonda entraram cedo. Por volta da mesma idade, o filme Jamaica Abaixo de Zero o empurrou para o atletismo: correu como velocista, venceu competições estaduais e só parou aos 18 anos para cursar publicidade em Lorena. O mesmo filme, segundo ele, também ajudou a se reconhecer como pessoa negra.
Desde 2009 está no Twitter, hoje X, com o handle @savagefiction. Em junho de 2018, uma série de publicações sobre Leopoldo II da Bélgica e o massacre no Congo viralizou e chegou a milhões de visualizações. Outros fios sobre povos negros seguiram o mesmo caminho. Editoras notaram. Em 2019 saiu Rastros de resistência: histórias de luta e liberdade do povo negro, pela Panda Books, com prefácio de Emicida. O livro nasceu das histórias que ele já vinha contando na rede.
Também em 2019 publicou o conto Cangona na coletânea Todo mundo tem uma primeira vez, da Editora Plataforma 21, a partir da canção interpretada por Clementina de Jesus. Em 2013, bem antes do primeiro livro solo, já havia representado o Brasil na antologia de ficção científica Cautions, Dreams & Curiosities: The Tomorrow Project.
Afrofuturismo, Jabuti e o universo de Obambo
Em entrevistas, Ale Santos descreve o afrofuturismo como movimento cultural, estético e político: narrativas de protagonismo negro que misturam ancestralidade, tecnologia e futuro imaginado. Não é enfeite de capa. É o método. Em 2020, Rastros de resistência entrou no Clube de Leitura dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, na categoria redução das desigualdades, e chegou à final do Jabuti. No mesmo ano, o autor venceu o Sim à Igualdade Racial e apareceu na lista dos 50 brasileiros mais criativos do Wired Festival.
O último ancestral, romance pela HarperCollins Brasil, desloca o Brasil para um futuro em que uma elite tecnológica baniu religiões de matriz africana e empurrou a população negra para a favela de Obambo, na periferia do Distrito de Nagast. Eliah, jovem envolvido em roubo de carros, descobre carregar o espírito do Último Ancestral. O livro foi finalista do Jabuti 2022 e do CCXP Awards. Em 2023 veio A malta indomável, história paralela no mesmo universo, com ilustrações de Massai, pela Editora Pitaya, voltada também a leitores jovens.
A imprensa acompanhou a expansão do universo: G1, BBC News Brasil, CNN Brasil e Estado de Minas trataram o projeto como um dos poucos ciclos de ficção científica brasileira com favela, terreiro e cyberpunk no mesmo mapa. Houve anúncio de adaptação para RPG de mesa e de uma série com a RT Features, a produtora de Me Chame Pelo Seu Nome. Até aqui, o que está nas livrarias é o texto impresso.
Roteiro, podcast e a vida em Belém
Em 2023, Ale Santos roteirizou La Bestia para a série Assassin's Creed: Visionaries, da Lounak Comics, com arte do desenhista Rafael Albuquerque — o mesmo que assinou a capa de O último ancestral. A história se passa no Brasil de 1971, durante a ditadura, e foi lançada no exterior em novembro daquele ano. É o ponto em que a carreira literária cruza uma franquia global de games e quadrinhos.
No áudio, escreveu Ficções Selvagens, série original da Orelo de ficção científica e crítica social, dirigida por Ian SBF. Também participa de Infiltrados no Cast. Já colaborou com Vice Brasil, Superinteressante, The Intercept Brasil e Ponte Jornalismo. O site oficial, alesantos.me, reúne livros, HQs e contato comercial.
Depois de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, o escritor se mudou para Belém em 2023. A cidade aparece na agenda de lançamentos e na própria geografia afetiva da obra: rios, periferia, mitologias afro-brasileiras, ribeirinhas e indígenas. Não é detalhe de biografia. É o chão de onde ele passou a imaginar o futuro.
Onde ler e o que esperar da obra
Para quem está chegando agora, três entradas costumam funcionar. Rastros de resistência, na edição revista e ampliada da HarperCollins, de 2025, reúne mais de vinte trajetórias de luta negra — de Nanny, na Jamaica, a Chico da Matilde, o Dragão do Mar, e Benjamim de Oliveira, o palhaço. Quem quer ficção começa por O último ancestral e, se quiser continuar no mesmo mundo com outro recorte etário, segue para A malta indomável.
O perfil oficial na Amazon, o site, o Instagram @savagefiction e a página na Wikipédia confirmam a mesma identidade. Ale Santos não é um autor de “livro de representatividade” genérico nem um teórico distante: é alguém que transformou fios virais em estante, levou favela brasileira para a distopia e ainda escreveu um assassino da Ubisoft em território nacional. O resto — RPG, série, próximo romance — fica para o que já estiver publicado e verificável.




