Augusto Meyer nasceu em Porto Alegre, em 24 de janeiro de 1902, e morreu no Rio de Janeiro, em 10 de julho de 1970. Poeta, ensaísta, jornalista, folclorista e memorialista, ele atravessou a literatura brasileira do século XX em várias frentes ao mesmo tempo: ajudou a introduzir o Modernismo no Rio Grande do Sul, escreveu um dos estudos decisivos sobre Machado de Assis e organizou, no serviço público, a política nacional do livro.
Quem chega até este nome costuma procurar respostas diferentes. Há quem queira o poeta de Poemas de Bilu e da Canção do Negrinho do Pastoreio. Há quem busque o crítico que ensinou o país a reler Machado. E há quem encontre Meyer como gestor, à frente do Instituto Nacional do Livro. Este perfil reúne os três fios da mesma trajetória.
Origem, formação e primeiros passos
Filho dos imigrantes alemães Augusto Ricardo Meyer e Rosa Meyer, fez os primeiros estudos em Porto Alegre, no Colégio Anchieta, e deixou os cursos regulares para estudar línguas e literatura por conta própria. Estreou na literatura com o conto O Pastelão, publicado na revista Máscara quando tinha dezessete anos, e lançou o primeiro livro de poemas, A ilusão querida, em 1923. Na década seguinte, colaborou em jornais gaúchos como o Correio do Povo e o Diário de Notícias, onde assinou a página literária e divulgou os primeiros modernistas do estado. Em 1926, fundou com Teodomiro Tostes, Azevedo Cavalcante, João Santana e Miranda Neto a revista Madrugada.
Esses anos ligam Meyer ao círculo de intelectuais que se reunia em torno da Livraria do Globo, em Porto Alegre — ambiente que também projetou nomes como Erico Verissimo e boa parte da literatura gaúcha do período.
O poeta que renovou o regionalismo gaúcho
A poesia de Meyer começa simbolista e ganha voz própria no encontro com o Modernismo. Coração verde (1926), Giraluz e Duas Orações (1928) e Poemas de Bilu (1929) firmaram a reputação do poeta; este último recebeu de Mário de Andrade o elogio de "um dos maiores líricos do Brasil contemporâneo". No regionalismo, Meyer não se contentou com a paisagem pitoresca: a crítica destaca nele a virada para o sujeito, a memória e a infância, com linguagem renovada e tom filosófico.
O poema mais conhecido, a Canção do Negrinho do Pastoreio, também citado como Oração ao Negrinho do Pastoreio, funde a lenda gaúcha e a religiosidade popular em versos que seguem sendo recitados e incluídos em antologias. Com Raul Bopp e Mário Quintana, a Academia Brasileira de Letras situa Meyer na trindade modernista do Rio Grande do Sul. A produção poética foi reunida em Poesias 1922–1955 (1957), com antologia publicada uma década depois.
O crítico que ajudou a reler Machado de Assis
Em 1935, com o volume Machado de Assis, Meyer passou a ser lido também como ensaísta, e não apenas como poeta. A Academia Brasileira de Letras trata o trabalho como um dos estudos exegéticos mais importantes sobre o autor de Dom Casmurro, Machado de Assis, a quem Meyer admirava declaradamente.
A partir dali, a crítica virou o centro de sua produção. Ele publicou Prosa dos pagos (1943), À sombra da estante (1947), Preto & Branco (1956), A chave e a máscara (1964) e A forma secreta (1965), além do estudo Le Bateau ivre, sobre Rimbaud (1955). Também está entre os principais estudiosos brasileiros de Marcel Proust. Participou da fundação da Sociedade dos Amigos de Machado de Assis, entidade que presidiu.
Instituto Nacional do Livro e a vida institucional
Em 1937, convidado por Getúlio Vargas, Meyer transferiu-se para o Rio de Janeiro com um grupo de intelectuais gaúchos para organizar o Instituto Nacional do Livro. Dirigiu o órgão em dois períodos, de 1937 a 1956 e de 1961 a 1967, e nesse trabalho articulou a edição e a distribuição de livros e o incentivo à criação de bibliotecas em municípios brasileiros. Em paralelo, lecionou Literatura e Teoria da Literatura no curso de Biblioteconomia da Biblioteca Nacional e na antiga Universidade do Brasil. Presidiu a Associação Brasileira de Bibliotecários em 1952 e 1953 e integrou o Conselho Federal de Cultura entre 1967 e 1970.
O reconhecimento veio por vários caminhos. Meyer recebeu o Prêmio Filipe de Oliveira, de memórias, em 1947, e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 1950, pelo conjunto da obra. Em 1960 foi eleito para a cadeira 13 da Academia, na sucessão de Hélio Lobo, e tomou posse em abril de 1961, recebido por Alceu Amoroso Lima. O perfil oficial da Academia registra ainda que ele dirigiu a cátedra de Estudos Brasileiros na Universidade de Hamburgo e foi adido cultural do Brasil na Espanha.
Folclore, memória e o Rio Grande do Sul
Duas outras frentes completam a obra. Como folclorista, Meyer organizou Guia do folclore gaúcho (1951) e Cancioneiro gaúcho (1952), tratados como referências sobre a cultura popular do estado. Como memorialista, escreveu Segredos da infância (1949) e No tempo da flor (1966), livros em que a lembrança pessoal vira matéria literária — o que a Academia descreve como um memorialismo lírico. O tema atravessa boa parte de sua poesia: a recuperação do passado, a infância perdida e a primazia da fantasia sobre a racionalidade.
Quando morreu, em 1970, deixava 21 livros publicados. Seu nome batiza uma rua e uma sala na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Reedições de poemas, ensaios e memórias mantêm a obra em circulação, muitas delas pelo Instituto Estadual do Livro.
Obras principais e por onde começar
- A ilusão querida (1923), a estreia na poesia;
- Poemas de Bilu (1929), o livro consagrado por Mário de Andrade;
- Machado de Assis (1935), marco da crítica literária brasileira;
- Prosa dos pagos (1943), ensaios sobre a cultura do Sul;
- Segredos da infância (1949) e No tempo da flor (1966), memorialismo;
- Guia do folclore gaúcho (1951) e Cancioneiro gaúcho (1952), folclore;
- Poesias 1922–1955 (1957), a reunião da obra poética.
Para começar a ler, há três portas. Quem quer a poesia encontra a antologia Melhores Poemas, organizada por Tania Franco Carvalhal e publicada pela Global Editora. Quem quer o ensaísta pode recorrer a Ensaios escolhidos, seleção de Alberto da Costa e Silva, ou a Textos críticos, volume organizado por João Alexandre Barbosa. Quem se interessa pela vertente regionalista tem em Prosa dos pagos o ponto de partida mais direto. As edições estão listadas nos projetos ligados a este perfil.
Para quem estuda a formação da literatura brasileira e a cultura do sul do país, a obra de Augusto Meyer continua sendo passagem obrigatória: menos pela quantidade de homenagens e mais pela consistência do que ele escreveu como poeta, crítico e estudioso das tradições populares.






