Edgard Leuenroth tinha 35 anos quando a Greve Geral de 1917 paralisou São Paulo e o colocou, como porta-voz do Comitê de Defesa Proletária, no centro do maior confronto entre trabalhadores e o Estado na Primeira República. Tipógrafo de ofício e militante anarquista desde o início do século, ele já era então um veterano da imprensa operária — atividade que não abandonaria até morrer, em 1968, e que daria origem a um dos maiores acervos sobre a história do trabalho no Brasil.
Leuenroth nasceu em Mogi Mirim, no interior paulista, em 31 de outubro de 1881, e chegou ainda criança ao bairro do Brás, em São Paulo. Deixou a escola cedo para trabalhar e aprendeu quase tudo o que sabia nas oficinas e nas redações. Essa mistura de operário e autodidata marcou toda a sua trajetória: foi ao mesmo tempo o homem que compunha o jornal na madrugada e o que debatia doutrina com os grandes nomes do movimento libertário.
Quem foi Edgard Leuenroth
Filho de Waldemar Eugênio Leuenroth e de Amélia de Oliveira Brito, Edgard Frederico Leuenroth veio de uma família de imigrantes germanófonos originários do Alto Ádige, região que pertencia ao Império Austro-Húngaro. Depois da morte do pai, a mãe e os filhos se mudaram para o Brás, então um dos bairros operários mais populosos de São Paulo. A infância sem escola regular e o trabalho precoce explicam muito do que ele se tornaria: um militante que escrevia com clareza porque precisava ser entendido por quem tinha pressa e pouca instrução.
Aprendeu o ofício de tipógrafo e passou doze anos ligado à composição de um jornal diário paulistano. Foi nesse ambiente que nasceu sua dupla vocação — a de organizador de trabalhadores e a de jornalista. Entre a máquina de tipos e as assembleias sindicais, construiu uma carreira que atravessaria a Primeira República, a Era Vargas e os primeiros anos da ditadura militar.
Da tipografia ao movimento operário
Em 1897, ainda muito jovem, fundou o quinzenário literário O Boi. O nome nasceu do acaso: ao comprar uma velha tipografia, veio junto um clichê de impressão com aquelas três letras. Dois anos depois, o jornal virou Folha do Braz, voltado aos moradores do bairro. No início dos anos 1900, interessou-se pelo socialismo, frequentou o Círculo Socialista e logo foi apresentado por amigos às ideias anarquistas, das quais nunca mais se afastaria.
Foi como operário gráfico que ajudou a criar o Centro Tipográfico de São Paulo, embrião da União dos Trabalhadores Gráficos, e o jornal O Trabalhador Gráfico. Em 1905 vivia no Rio de Janeiro, trabalhando como tipógrafo e estudando as correntes libertárias com o português Neno Vasco, com quem fundou a A Terra Livre. Na volta a São Paulo, participou do Primeiro Congresso Operário Brasileiro, em 1906, que teve na jornada de oito horas sua principal bandeira.
Seguiram-se anos de atividade intensa na imprensa operária: Folha do Povo (1908), a direção do jornal anticlerical A Lanterna (1909 a 1916), A Guerra Social (1912), além de colaborações em O Combate e A Capital. Ao lado de Neno Vasco, Oreste Ristori e Gigi Damiani, participou da Escola Moderna de São Paulo, experiência pedagógica inspirada no educador libertário Francisco Ferrer. Escrevia também sob pseudônimos como Frederico Brito, Palmeiro Leal, Len e Leão Vermelho.
A Greve Geral de 1917 e a prisão
Em 1917, quando as fábricas têxteis da Mooca cruzaram os braços e o movimento se espalhou pela cidade, Leuenroth acabava de fundar A Plebe, jornal que se tornaria um dos mais importantes da imprensa anarquista brasileira. Ele assumiu a função de porta-voz e secretário do Comitê de Defesa Proletária, criado em reunião clandestina para coordenar as reivindicações dos grevistas. Para o aparato repressor, era o mentor intelectual da paralisação.
Preso, respondeu a processo e foi acusado de ter dirigido a greve. Na cadeia, recusou a proposta de amigos que queriam lançá-lo candidato a deputado como protesto: não compactuaria com o Estado nem para denunciá-lo. Acabou absolvido por unanimidade pelo Tribunal do Júri. A repressão, porém, não terminou — em 1919, a redação e a gráfica de A Plebe foram depredadas por estudantes de direito.
Do entusiasmo bolchevique à ruptura de 1922
Como muitos anarquistas, Leuenroth saudou inicialmente a Revolução Russa, sobre a qual quase não havia informação confiável. Participou da fundação de um partido comunista de tendência libertária no Rio de Janeiro e escreveu, com Hélio Negro, o livreto O que é Maximismo ou Bolchevismo: programa comunista, distribuído na Primeira Conferência Comunista do Brasil, em 1919. No mesmo ano ajudou a fundar o jornal Spartacus, ao lado de José Oiticica e Astrojildo Pereira.
Quando as notícias sobre perseguições e expurgos na Rússia chegaram ao Brasil, a aliança se rompeu. Em 1922, A Plebe publicou um manifesto rejeitando o autoritarismo bolchevique, e Leuenroth passou a ser atacado por antigos companheiros na imprensa comunista. Depois da morte do amigo Ricardo Cipolla, num espetáculo organizado para arrecadar fundos para o jornal, afastou-se temporariamente da militância por problemas de saúde.
Os jornais que Leuenroth fundou e dirigiu
Ao longo de mais de meio século, ele esteve ligado a dezenas de publicações. As principais mostram a variedade do seu trabalho:
- O Boi e Folha do Braz — primeiros jornais, ainda no fim do século XIX;
- A Terra Livre — fundado com Neno Vasco;
- Folha do Povo — criado em 1908;
- A Lanterna — jornal anticlerical que dirigiu em duas fases;
- A Guerra Social — fundado em 1912;
- A Plebe — semanário anarquista que se tornou diário em 1919;
- Spartacus — órgão do grupo comunista libertário de 1919;
- Ação Libertária — que assumiu em 1958, após a morte de José Oiticica.
O arquivo que virou instituição
Além de escrever, Leuenroth guardou. Durante décadas recolheu jornais, folhetos, livros, fotografias e documentos de organização dos trabalhadores. Em 1974, poucos anos depois de sua morte, esse conjunto foi adquirido pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, com apoio da Fapesp, e transformado no Arquivo Edgard Leuenroth. O fundo que leva seu nome reúne mais de dois mil livros, cerca de mil folhetos e mais de mil títulos de periódicos, com datas entre 1905 e 1968.
A instituição cresceu muito além do acervo original. Hoje ocupa sede própria, reúne cerca de 200 fundos e coleções, perto de 50 mil livros e mais de 15 mil títulos de periódicos, atendendo pesquisadores, sindicatos, escolas e imprensa. Grande parte do material já pode ser consultada remotamente no acervo digital da universidade.
Como Edgard Leuenroth é lembrado hoje
Seu nome aparece sempre que se estuda a Primeira República, a imprensa operária ou a história do anarquismo no Brasil. Os jornais que dirigiu são fonte obrigatória para pesquisadores, e a trajetória dele ajuda a entender como os trabalhadores daquela época organizaram sindicatos, criaram escolas e disputaram a opinião pública — tudo isso em um país que reprimia duramente quem ousava se organizar. A história desse período também é tema da obra do historiador Edgard Carone, que dedicou ao movimento operário volumes como O Movimento Operário no Brasil.
Pouco antes de morrer, em 1968, Leuenroth publicou Anarquismo: roteiro da libertação social, uma síntese de suas ideias. O militante que começou como aprendiz de tipógrafo terminou a vida como arquivista — e deixou para o país um acervo que continua sendo consultado, citado e ampliado. Quem procura entender o Brasil do trabalho encontra o nome dele no caminho.





