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Ernani Fornari

Nascimento: 1899 Rio Grande, Rio Grande do Sul
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Escritor, poeta e dramaturgo gaúcho, Ernani Fornari transitou entre o Simbolismo e o Modernismo e escreveu uma das primeiras biografias do padre Landell de Moura.

Ernani Fornari começou publicando poesia em 1923 e, nos últimos anos de vida, assinou uma das primeiras biografias do padre Landell de Moura, o inventor gaúcho que fez experiências pioneiras de transmissão de som sem fio. Entre um extremo e outro, passou pelo conto, pelo romance e pelo teatro, numa obra que transita entre o Simbolismo e o Modernismo e que vem sendo redescoberta por pesquisadores e arquivos públicos.

Nascido em Rio Grande, no litoral do Rio Grande do Sul, em 15 de dezembro de 1899, Ernani Guaragna Fornari era filho de um imigrante italiano e teve uma infância pobre. A vida adulta foi construída entre o Rio de Janeiro, onde morreu em 8 de junho de 1964, e São Paulo, onde algumas de suas peças foram encenadas. Também viveu em Lisboa, servindo na embaixada brasileira ao lado do poeta Olegário Mariano — passagem documentada no arquivo pessoal do autor, preservado hoje no Centro de Documentação da Funarte.

Um gaúcho entre o Simbolismo e o Modernismo

A formação literária de Fornari acompanha as transformações da poesia brasileira nas primeiras décadas do século XX. Ele pertence a uma geração de escritores gaúchos que começou a publicar sob influência simbolista e, pouco depois, absorveu as conquistas do Modernismo — combinação que aparece tanto nos versos quanto na prosa de ficção. Boa parte dessa produção ganhou circulação pela Livraria do Globo, em Porto Alegre, editora que lançava muitos autores do estado, entre eles Érico Veríssimo e Mário Quintana.

A poesia de Fornari foi mapeada pela primeira vez em uma dissertação de mestrado defendida na Universidade de Caxias do Sul, em 2009, e depois em uma tese de doutorado na PUCRS, em 2020, que recuperou e fixou cerca de 200 poemas, incluindo textos inéditos. Os dois trabalhos descrevem uma obra em diálogo com a literatura sul-rio-grandense e brasileira e que, até então, permanecia dispersa em edições antigas e manuscritos.

Os livros de poesia e a passagem para a prosa

O primeiro livro, Missal da ternura e da humildade, saiu pela Livraria do Globo em 1923 e ganhou segunda edição em 1933. Depois vieram Trem da serra (1928), reeditado em 1987, e Praia dos milagres (1932). Um quarto conjunto de poemas, Quatro poemas brasileiros, permaneceu inédito. No total, o levantamento acadêmico mais completo sobre o autor reúne cerca de 200 poemas.

Na ficção em prosa, Guerra das fechaduras reúne contos publicados no início dos anos 1930 e marca a passagem do autor da poesia para a narrativa. O romance O homem que era dois, de 1935, dá continuidade a essa fase e é, ao lado dos contos, uma das portas de entrada para a prosa de Fornari. Os dois títulos ajudam a entender a literatura gaúcha da década de 1930, período em que a Livraria do Globo consolidou um catálogo de autores do estado.

O dramaturgo: Iaiá Boneca, Sinhá Moça Chorou e Sem Rumo

Foi no teatro que a obra de Fornari ganhou maior circulação. O arquivo do autor na Funarte está organizado justamente em torno de sua produção dramatúrgica e reúne documentos das montagens de Iaiá Boneca, Sinhá Moça Chorou e Sem Rumo, entre outras peças. As pastas registram a passagem do autor por companhias como a de Eva Todor, a de Dulcina de Moraes e Odilon Azevedo e a de Nicete Bruno e Sérgio Cardoso, que levou Sinhá Moça Chorou aos palcos paulistanos em 1954.

Recortes de jornal preservados nesse fundo mostram anúncios e críticas das temporadas, além de cartas trocadas com instituições do período, como a Academia Brasileira de Letras, a Associação Brasileira de Imprensa e a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. É um retrato raro de como um dramaturgo gaúcho circulava pelos circuitos carioca e paulista em meados do século XX.

O biógrafo do padre Landell de Moura

Em 1960, Fornari publicou O incrível Padre Landell de Moura: história triste de um inventor brasileiro, pela Editora Globo. O livro conta a trajetória de Roberto Landell de Moura (1861-1928), padre católico e cientista que realizou experiências de transmissão de som e sinais sem fio e obteve patentes no Brasil e nos Estados Unidos, mas morreu sem o reconhecimento que sua obra viria a receber. Fornari foi contemporâneo do biografado e é apontado como seu primeiro biógrafo.

A obra teve segunda edição em 1984, pela Biblioteca do Exército, e ajudou a manter viva a memória de Landell em um momento em que o nome do inventor ainda era pouco conhecido fora dos círculos técnicos. Hoje, Landell é patrono dos radioamadores brasileiros e tem o nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria — reconhecimento construído ao longo de décadas, com a contribuição de biografias como a de Fornari.

O arquivo na Funarte e a recuperação da obra

O arquivo pessoal de Ernani Fornari foi doado à Funarte em 1979 por Claudio Fornari e reúne documentos produzidos entre 1929 e 1962. Organizado em torno da dramaturgia, o fundo inclui carteira profissional, documentos de identidade, correspondência e registros das montagens, e está disponível para consulta pública no Centro de Documentação da Funarte, no Rio de Janeiro.

Nas últimas décadas, a obra do escritor voltou a circular também no meio acadêmico. A dissertação defendida na UCS em 2009 traçou um mapeamento de sua poesia, e a tese defendida na PUCRS em 2020 recuperou éditos e inéditos, atualizando os textos para novas leituras. O interesse dos pesquisadores reforça o lugar de Fornari na literatura brasileira: um autor de transição, que atravessou o Simbolismo e o Modernismo sem se fixar em nenhum dos dois.

Por onde começar a ler Ernani Fornari

  • Missal da ternura e da humildade (1923) — o livro de estreia, primeiro passo de uma poética entre o Simbolismo e o Modernismo.
  • Trem da serra (1928) — poesia, com reedição em 1987.
  • Praia dos milagres (1932) — o último livro de poemas publicado em vida.
  • Guerra das fechaduras (início dos anos 1930) — contos, na passagem para a prosa.
  • O homem que era dois (1935) — romance.
  • O incrível Padre Landell de Moura (1960) — biografia, reeditada em 1984.

Ler Ernani Fornari hoje é acompanhar uma geração que fez a ponte entre a poesia do início do século XX e a ficção que viria depois. Sua trajetória mostra como a literatura gaúcha se organizou em torno de editoras, jornais e companhias de teatro — e como um autor pode permanecer décadas à margem do cânone até que arquivos e universidades decidam reabrir o caso.

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