Em 1990, quando o rock dominava as rádios brasileiras e ninguém acreditava que existisse mercado para uma música pop dançante feita no Brasil, Fernanda Abreu respondeu com uma aposta: "não tem, mas vamos inaugurar". A frase, dita à gravadora que duvidava do projeto, resume a trajetória de uma artista que apresentou o sample e a batida eletrônica ao pop nacional, levou o funk carioca para as grandes rádios e assinou hinos que atravessaram gerações, como "Rio 40 Graus" e "Garota Sangue Bom".
Cantora, compositora e bailarina, Fernanda Sampaio de Lacerda Abreu nasceu no Rio de Janeiro em 8 de setembro de 1961 e fez da cidade o centro de sua obra. A imprensa a chama de "mãe do pop dançante brasileiro"; a cena funk a trata como madrinha, por ter construído a ponte entre o baile da periferia e o rádio. Antes de cantar, dançou: formou-se bailarina pelo curso da russa Tatiana Leskova e passou por companhias de dança contemporânea nos anos 1970.
Quem é Fernanda Abreu
Filha de um arquiteto português e de uma bibliotecária carioca, Fernanda cresceu no Jardim Botânico, em uma casa onde o Carnaval e o samba de roda eram rotina. Começou o balé aos nove anos e, na adolescência, somou violão, canto e dança contemporânea. Em 1977 entrou no Grupo Coringa, companhia de Graciela Figueroa; em 1981 acompanhou o bailarino Carlos Afonso no Grupo Fonte e, no mesmo ano, fundou a banda Nota Vermelha, em que dividia os vocais com Leo Jaime.
A Blitz e o aprendizado do palco
Em janeiro de 1982, Evandro Mesquita a convidou para os backing vocals da Blitz, banda que ainda se apresentava em bares da Zona Sul do Rio. O compacto de "Você Não Soube Me Amar" vendeu 100 mil cópias em três meses e transformou o grupo em fenômeno nacional. Fernanda ficou na Blitz por três discos, cantou para 110 mil e 200 mil pessoas nas duas noites do Rock in Rio de 1985 e saiu da banda em 1986, quando o grupo anunciou a separação.
SLA Radical Dance Disco Club: a estreia que inaugurou a dance music no Brasil
Em 1987, a EMI lhe ofereceu um contrato solo que ela recusou: queria gravar material próprio, não apenas emprestar a voz. Ganhou de Liminha uma bateria eletrônica, aprendeu violão e passou a compor as próprias faixas. Em 1989, foi levada por Hermano Vianna a um baile de DJ Marlboro, o primeiro contato com o funk carioca. O álbum de estreia, SLA Radical Dance Disco Club, saiu em 1990, produzido por Fábio Fonseca com Herbert Vianna, e trouxe para o Brasil o uso explícito de samples em faixas como "A Noite" e "Luxo Pesado". As iniciais do título são as do nome completo da artista, Sampaio de Lacerda Abreu. O disco vendeu 260 mil cópias.
Rio 40 Graus e o retrato sem maquiagem do Rio
Em 1992, o segundo álbum, SLA 2 Be Sample, levou a mistura de pop, rap, samba e funk a 400 mil cópias. Dele saiu "Rio 40 Graus", parceria com Fausto Fawcett e Carlos Laufer, que falava de tráfico, camelôs e favelas em vez da cidade maravilhosa dos cartões-postais. A canção virou hino informal do Rio e colocou a música da periferia nas rádios de todo o país. No mesmo disco, a regravação de "Jorge da Capadócia", de Jorge Ben Jor, ganhou assinatura própria.
Da Lata e a projeção internacional
Lançado em julho de 1995, Da Lata é o disco mais ambicioso da carreira. Produzido por Liminha e pelo inglês Will Mowat, do Soul II Soul, o álbum transformou o batuque de lata dos morros em samba-funk eletrônico, com letras que falavam do Brasil real. A revista Billboard o elegeu o melhor álbum latino-americano do ano e o disco recebeu o certificado de ouro pelas mais de 100 mil cópias vendidas no Brasil. A turnê passou por Europa e Ásia, e as faixas "Veneno da Lata" e "Garota Sangue Bom", esta em parceria com Fausto Fawcett, se tornaram marcos do pop brasileiro.
Os discos seguintes e a gravadora própria
Depois de Da Lata, Fernanda lançou uma sequência de trabalhos que confirmaram sua autonomia artística:
- Raio X (1997) — releituras dos próprios sucessos com convidados, Disco de Ouro;
- Entidade Urbana (2000) — álbum sobre metrópoles, com "São Paulo - SP";
- Na Paz (2004) — mistura de pop, bhangra e ritmos brasileiros;
- MTV ao Vivo (2006) — primeiro registro ao vivo, com medleys de rap e funk carioca;
- Amor Geral (2016) — álbum autobiográfico sobre relações, com participação de Afrika Bambaataa em "Tambor".
Em 2004, criou a própria gravadora, a Garota Sangue Bom Records, para produzir sem interferência e cuidar do próprio acervo. O hábito de guardar material rendeu a base do que viria depois: fotos, figurinos, cartazes e gravações que sustentam os projetos de memória da carreira.
30 Anos de Baile: o encontro com a cena eletrônica
Em 2021, para celebrar três décadas de carreira solo, Fernanda entregou as próprias faixas a 14 DJs e produtores brasileiros. O álbum 30 Anos de Baile transformou "Jorge da Capadócia" em pista de Gui Boratto, "Veneno da Lata" em batida do Tropkillaz e "A Noite" em remix de DJ Zé Pedro e DJ Memê. Entre os convidados, Projota aparece em "Você pra Mim" e Emicida na versão de "Outro Sim" assinada por Ruxell. Uma edição com versões estendidas, 30 Anos de Baile (Extended Versions), saiu no mesmo ano.
Da Lata 30 Anos: livro, documentário, vinil e remix
Em outubro de 2025, a artista idealizou, dirigiu e produziu o projeto que celebra os 30 anos de Da Lata. A celebração reuniu quatro frentes: o documentário dirigido por Paulo Severo, selecionado para o Festival do Rio e para o Festival de Cinema Brasileiro de Paris; o livro Fernanda Abreu — Da Lata 30 anos, coeditado com a editora Cobogó e organizado por ela e por Luiz Stein; o relançamento do álbum em vinil pela Universal Music; e um remix inédito de "Garota Sangue Bom", assinado pela dupla From House to Disco.
Reconhecimento, prêmios e atuação social
A contribuição de Fernanda Abreu à cultura brasileira foi reconhecida com a Ordem do Mérito Cultural, em 2009, a Medalha Chiquinha Gonzaga, em 2008, e o título de Cidadã Benemérita da Cidade do Rio de Janeiro, em 2010. Ela se apresentou em seis edições do Rock in Rio desde 1985 e mantém parcerias com projetos sociais como o AfroReggae, a cooperativa Coopa Roca, o Projeto Morrinho, o movimento Passinho do Funk e a CUFA. Em 2022, idealizou e produziu a Festa Amor Geral, que comemorou os 10 anos do Parque Madureira com 91 artistas no palco.
Fernanda Abreu hoje
A artista segue em turnê pelo Brasil e pelo exterior — nos últimos anos passou por Portugal, Chile, Estados Unidos e França — e continua lançando música nova. Em 2025, participou de "Passe a Respeitar", faixa do produtor Papatinho com Naldo Benny e BK para a trilha sonora do jogo FIFA 2026, e gravou "Nasci para Bailar" para o álbum "Viva Donato – 90 Anos", tributo a João Donato. A agenda de shows e os lançamentos são divulgados no site oficial e nos canais verificados da cantora.
Perguntas frequentes sobre Fernanda Abreu
Qual é a música mais conhecida de Fernanda Abreu?
"Rio 40 Graus", lançada em 1992 no álbum SLA 2 Be Sample, é o maior sucesso de rádio da carreira e um dos retratos mais citados do Rio de Janeiro na música brasileira. "Garota Sangue Bom" e "Veneno da Lata", ambas de Da Lata (1995), completam a lista de faixas mais conhecidas.
Qual álbum marcou a carreira internacional da cantora?
Da Lata (1995). Eleito o melhor álbum latino-americano do ano pela Billboard, o disco foi lançado também no mercado europeu e asiático e rendeu turnês internacionais à artista.
Quais livros Fernanda Abreu escreveu?
Ela escreveu o infantojuvenil Meu Pequeno Vascaíno, lançado em 2009, e organizou, com Luiz Stein, o livro Fernanda Abreu — Da Lata 30 anos, publicado pela Cobogó em 2025.
Onde ouvir a discografia de Fernanda Abreu?
Toda a discografia solo está disponível nas principais plataformas de streaming, como Spotify, Apple Music, Amazon Music, Deezer e YouTube Music. Os discos físicos e relançamentos aparecem com frequência em edições de vinil e projetos comemorativos.






