Em 1990, Ilha das Flores levou para o Brasil o Urso de Prata de curta-metragem do Festival de Berlim e transformou um documentário de treze minutos sobre um tomate, um porco e uma família pobre em uma das obras mais conhecidas do audiovisual nacional. O autor é Jorge Furtado, roteirista, diretor e escritor gaúcho que começou na televisão pública do Rio Grande do Sul, ajudou a fundar a Casa de Cinema de Porto Alegre e assinou dezenas de especiais e séries para a TV brasileira, boa parte deles em parceria com Guel Arraes.
Nascido em Porto Alegre em 9 de junho de 1959, Furtado construiu uma trajetória que atravessa curtas premiados em festivais internacionais, longas de grande público, minisséries, livros e traduções. Quem procura o nome dele costuma querer saber quais filmes dirigiu, o que escreveu para a televisão, como surgiu a produtora que ajudou a criar e quais obras literárias publicou. É esse percurso que este perfil reúne.
Quem é Jorge Furtado e como ele chegou ao cinema
Jorge Alberto Furtado cresceu em Porto Alegre, filho de Dercy Furtado, a primeira mulher eleita vereadora na capital gaúcha. Antes de escolher o cinema, passou pelos cursos de medicina, psicologia, jornalismo e artes plásticas sem concluir nenhum deles. A virada veio nas sessões do antigo Cine Bristol, na Avenida Osvaldo Aranha, onde assistia a filmes de François Truffaut, Jean-Luc Godard e Alain Resnais, e depois de ver Deu pra ti, anos 70 (1981), de Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti.
No início dos anos 1980, entrou na TVE RS como repórter, apresentador, editor, roteirista e produtor. Em 1982, ajudou a criar o programa semanal Quizumba, que misturava ficção e documentário. Entre 1984 e 1986, dirigiu o Museu de Comunicação Social de Porto Alegre.
O primeiro curta veio em 1984: Temporal, rodado em 35 mm e baseado em um conto de Luis Fernando Verissimo. A parceria com o escritor gaúcho voltaria à televisão anos depois, em A Comédia da Vida Privada.
Casa de Cinema de Porto Alegre: a produtora que ele ajudou a fundar
Em 1987, Furtado foi um dos fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre, criada como cooperativa de cineastas gaúchos e transformada em produtora independente em 1991. Ele segue entre os sócios, ao lado de Ana Luiza Azevedo, Giba Assis Brasil e Nora Goulart. A Casa assina dezenas de curtas, longas e séries, além de cursos de roteiro e de introdução à realização cinematográfica.
Os filmes de Jorge Furtado
A primeira fase da carreira rendeu curtas que continuam em circulação, como O Dia em que Dorival Encarou a Guarda (1986), Barbosa (1988), Ilha das Flores (1989), Esta Não é a Sua Vida (1991), Felicidade é... (1995) e O Sanduíche (2000). Narrado por Paulo José, Ilha das Flores venceu vários prêmios no Festival de Gramado de 1989 e o Urso de Prata no Festival de Berlim de 1990. Em 2019, foi eleito o melhor curta-metragem brasileiro de todos os tempos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), e em 2026 ganhou uma versão restaurada em 4K.
Houve uma Vez Dois Verões, O Homem que Copiava e os longas seguintes
A estreia em longa-metragem aconteceu em 2002, com Houve uma Vez Dois Verões, premiado no Cine Ceará e no Festival de Cinema Brasileiro de Paris. O grande público chegou no ano seguinte, com O Homem que Copiava (2003), que ultrapassou 600 mil espectadores e recebeu o Grande Prêmio Cinema Brasil de melhor filme, melhor direção e melhor roteiro original.
Vieram depois Meu Tio Matou um Cara (2004), estrelado por Darlan Cunha e Lázaro Ramos; Saneamento Básico, o Filme (2007), com Fernanda Torres e Wagner Moura no elenco; O Mercado de Notícias (2014); Real Beleza (2015); Rasga Coração (2018), adaptação da peça de Oduvaldo Vianna Filho; Vai Dar Nada (2022), codirigido com Ana Luiza Azevedo; e Virgínia e Adelaide (2025), codirigido com Yasmin Thayná, sobre o encontro das psicanalistas Virgínia Bicudo e Adelaide Koch.
Como roteirista, assinou ainda títulos como Tolerância (2000), Caramuru - A Invenção do Brasil (2001), Benjamim (2003), Lisbela e o Prisioneiro (2003), O Coronel e o Lobisomem (2005) e Antes que o Mundo Acabe (2010).
A parceria com Guel Arraes e o trabalho na televisão
A partir de 1990, Furtado passou a escrever para a TV Globo, em geral associado ao núcleo de Guel Arraes. A dupla assinou minisséries e especiais como Agosto (1993), Memorial de Maria Moura (1994), A Comédia da Vida Privada (1995), A Invenção do Brasil (2000), Os Normais e Cena Aberta (2003).
Em 2012, escreveu e dirigiu o telefilme Doce de Mãe, transformado em série dois anos depois, com Fernanda Montenegro no papel de Dona Picucha. A produção venceu o Emmy Internacional de melhor comédia em 2015. Na mesma década, participou de Mister Brau, Sob Pressão e Todas as Mulheres do Mundo (2020), além de assinar Tô Nessa (2024).
Os trabalhos seguem em circulação: em setembro de 2026, A Comédia da Vida Privada entrou no catálogo do Globoplay e Virgínia e Adelaide foi exibida na faixa "Negritudes" do Canal Brasil.
Jorge Furtado escritor: livros, teatro e traduções
Além dos roteiros, Furtado mantém uma obra literária que começou com Um astronauta no Chipre (1992) e inclui o romance de estreia Trabalhos de Amor Perdidos (2006), adaptação moderna da peça homônima de Shakespeare; os contos de Meu Tio Matou um Cara e Outras Histórias (2002); o livro da minissérie A Invenção do Brasil (2000), escrito com Guel Arraes; o infantil Pedro Malazarte e a Arara Gigante (2009); o romance histórico As Aventuras de Lucas Camacho Fernandez (2022), ilustrado por Marcelo D'Salete; e a peça O Debate (2021), também em parceria com Guel Arraes.
Como tradutor, publicou com Liziane Kugland versões em português de Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll. Shakespeare é uma presença recorrente em sua bibliografia, do romance de estreia ao livro de 2022.
Prêmios, homenagens e reconhecimento
A obra de Furtado circula por festivais e universidades há décadas. Entre os principais marcos públicos estão:
- Urso de Prata de curta-metragem no Festival de Berlim de 1990, por Ilha das Flores;
- Grande Prêmio Cinema Brasil de melhor filme, direção e roteiro original em 2003, por O Homem que Copiava;
- Emmy Internacional de melhor comédia em 2015, por Doce de Mãe;
- Ordem do Mérito Cultural, recebida em 2025;
- homenagem no Museu da Língua Portuguesa, também em 2025;
- patrono da 37ª Feira do Livro de Gravataí, realizada em outubro de 2026.
Festivais em Hamburgo, Rotterdam, São Paulo, Toulouse, Paris, Londres, Bruxelas e Punta del Este já dedicaram mostras à obra dele, e em 2008 o Harvard Film Archive exibiu a retrospectiva "Jorge Furtado's Porto Alegre". Em 2025, uma mostra reuniu seus filmes na Sala Eduardo Hirtz, em Porto Alegre.
O que Jorge Furtado faz atualmente
Furtado continua ligado à produção, ao ensino e à difusão do cinema. Em 2026, participou de uma masterclass ao lado da produtora Nora Goulart no Curta! Festival, viu Virgínia e Adelaide entrar no Globoplay e no Canal Brasil e assumiu o posto de patrono da Feira do Livro de Gravataí. Seus filmes seguem em sessões, mostras e festivais no Brasil e no exterior, e seus livros permanecem em catálogo em edições como a da Companhia das Letras e da L&PM.






