Em 1963, aos 16 anos, José Trajano deixou o Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro, para trabalhar na redação do Jornal do Brasil. A escolha interrompeu a formação escolar e abriu uma carreira que passaria por jornais da chamada imprensa nanica, pela TV Cultura e pela criação da ESPN Brasil ao lado de outros jornalistas. É essa mistura de redação, rua e televisão que ajuda a explicar por que o nome dele aparece tanto quando se discute jornalismo esportivo no país.
José Trajano Reis Quinhões nasceu no Rio de Janeiro em 21 de outubro de 1946. Passou a infância em uma fazenda da família em Rio das Flores, no interior fluminense, e cresceu na Tijuca, perto da praça Afonso Pena e do America, o clube que levaria para a vida adulta. Filho de um professor de história e geografia e de uma dona de casa que também dava aulas de artes aplicadas, estudou no Colégio de São Bento até os 16 anos, quando o emprego no Jornal do Brasil mudou o rumo.
No JB, começou a conviver com repórteres e editores que discutiam política, cinema, literatura e futebol depois do expediente. A formação que não veio da escola veio dessas conversas e das leituras indicadas pelos colegas. Em 1970, acompanhou a Copa do Mundo no México. Dois anos depois, assumiu o primeiro cargo de comando, no Jornal dos Sports. Durante a ditadura militar, editou o jornal O Ex, um dos títulos da imprensa nanica que faziam oposição ao regime.
Em 1975, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou em uma publicação de oposição, no Jornal da Tarde e na Folha de S.Paulo. Na Folha, chegou a editor do caderno de esportes e viveu a rivalidade entre as redações paulistanas na cobertura do futebol. Foi também nessa fase que passou a circular com mais intimidade entre jornalistas, artistas e esportistas, um repertório que mais tarde apareceria em seus livros.
Da TVA Esportes à direção da ESPN Brasil
No início dos anos 1990, Julio Bartolo, amigo dos tempos de colégio, o convidou para chefiar a TVA Esportes, braço esportivo do grupo Abril. Em 1995, o canal passou a se chamar ESPN Brasil e Trajano assumiu a direção de jornalismo, função que ocupou até 2011. Ele participou da montagem da primeira equipe de transmissão, que trouxe para o canal nomes como Antero Greco, e ajudou a definir um modelo de cobertura baseado em análise e debate.
Na TV Cultura, apresentou o Cartão Verde entre 1993 e 2000. O programa levava jornalistas e convidados para discutir futebol em uma mesa, sem a pressa do placar ao vivo, e se tornou um espaço de análise e de memória do esporte. Em 1998, criou o Linha de Passe, mesa-redonda que se tornou uma das marcas da ESPN Brasil. Também participou do Pontapé Inicial e foi comentarista da Rádio Capital.
Deixou a ESPN Brasil em setembro de 2016, depois de 21 anos. A saída encerrou um ciclo na televisão por assinatura e abriu espaço para um projeto próprio, feito fora da estrutura de uma grande emissora.
Ultrajano: o jornalista na sala de casa
Em dezembro de 2016, começou o canal Ultrajano no YouTube. O primeiro Na Sala do Zé foi ao ar em 8 de dezembro daquele ano, com o músico Eduardo Gudin e o professor Pasquale Cipro Neto. Em 2017, o projeto ganhou site, Facebook e Twitter, e o jornalista passou a produzir conteúdo próprio, sem a mediação de uma redação tradicional.
Também em 2017, estreou o podcast Zé no Rádio na Central3. Em 2019, com a entrada de Dudu Monsanto, o programa virou Pontapé e reeditou a dupla que os dois haviam formado na TV. Os episódios inéditos seguiram até janeiro de 2022. Na TVT, apresentou o Papo com Zé Trajano a partir de setembro de 2017. Em 2021, entrou no Posse de Bola, do UOL, ao lado de Juca Kfouri, Arnaldo Ribeiro, Eduardo Tironi, Mauro Cezar Pereira e Danilo Lavieri.
O canal Ultrajano reúne entrevistas, comentários e programas ao vivo, com espaço para esporte, política, cultura e direitos humanos. O projeto é independente e tem controle editorial do próprio apresentador, com uma relação direta com o público que o acompanha desde os tempos do Cartão Verde.
Futebol e memória nos livros
A produção literária de Trajano começou em 2014 e transformou lembranças do Rio, do America e da Tijuca em matéria de ficção. Os romances não são autobiografia direta: a cidade, o clube e as pessoas aparecem recriados, com humor e com atenção aos detalhes de época.
- Procurando Mônica (2014) — a paixão de juventude por uma moça de Rio das Flores, revisitada décadas depois pelo jornalista que se tornou José Trajano.
- Tijucamérica (2015) — uma fantasia sobre o América e o bairro da Tijuca, em que videntes e pais de santo ajudam a trazer de volta os craques de outra época.
- Os Beneditinos (2018) — um jornalista desempregado reúne antigos colegas de colégio para disputar um campeonato de walking football e acertar contas com o passado.
- Aqueles Olhos Verdes (2021) — ficção e história se misturam na trajetória de Zé Reis entre 1938 e o início dos anos 1960, do Rio de Janeiro ao interior fluminense.
- 1960: Quando as estrelas ficaram vermelhas (2025) — o título do America na Taça Guanabara serve de fio para reconstruir o Rio da bossa nova, do rádio e do futebol de bairro.
Os livros aprofundam o mesmo território que aparece em sua atuação na imprensa: o futebol como experiência afetiva, a cidade como personagem e a memória como forma de entender o presente. Cada obra permite entrar por um aspecto diferente da mesma trajetória: o clube, o bairro, a família ou a cidade.
Prêmios, memória olímpica e parcerias
Trajano recebeu o Prêmio Comunique-se em 2009 e 2011, na categoria Executivo de Veículo de Comunicação. É consultor do projeto Memória do Esporte Olímpico Brasileiro desde a concepção, em 2011, e participou da criação do Caravana do Esporte, programa que leva esporte e educação a crianças e adolescentes.
A trajetória dele se cruza com a de Antero Greco, a quem chamou para a primeira equipe de transmissão da ESPN Brasil, em 1994. Os dois e outros jornalistas da mesma geração ajudaram a consolidar um jeito de fazer televisão esportiva que valorizava o contexto, a convivência e o humor sem abrir mão da apuração.
Quem se interessa por esportes e literatura encontra em José Trajano um ponto de contato entre a cobertura diária, o debate televisivo e a escrita de ficção. A obra dele não separa essas frentes: todas partem da mesma curiosidade sobre o Brasil, suas cidades e suas paixões.






