A Bolsa Amarela é o livro que transforma Lygia Bojunga em nome procurado fora da ficha de prêmio. Publicado em 1976, no meio da ditadura militar, narra a menina Raquel, de cerca de dez anos, que entra em conflito consigo e com a família ao esconder três vontades numa bolsa velha rejeitada pela tia Brunilda: crescer, ser menino e escrever.
A premissa parece brincadeira. Não é. Raquel percebe, em casa e na escola, que o mundo reserva chefia, estudo “sério”, pelada e pipa ao menino. Ser gente grande e ser homem, para ela, são a mesma fome: liberdade. Escrever é a vontade que ela não sabe explicar — só sabe que quer. As três vontades engordam dentro da bolsa até a fantasia virar método de sobrevivência.
O que acontece na história
Raquel inventa correspondentes — André, Lorelai — e convive com um galo falante, uma guarda-chuva que escolheu ser mulher na fábrica e um alfinete de fralda. O galo Afonso (antes destinado a ser “chefe” do galinheiro) foge da função que lhe costuraram. O primo Terrível foi treinado para briga até uma linha costurar-lhe o pensamento. São alegorias nítidas, mas o livro não para para dar aula: a menina conta o dia a dia, junta o real da família ao mundo que ela mesma povoa, e vai soltando as vontades que já não cabem.
No fim, as vontades de crescer e de ser menino pedem para ir embora, “que nem pipa”. A de escrever fica — e deixa de pesar, porque Raquel passa a escrever o que quer, em carta, romancinho ou telegrama, mesmo que riam dela. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil deu ao volume o selo de ouro de melhor livro para a criança. Décadas depois, ainda é o título mais citado da autora em busca, escola e rede social.
Para quem é e por que continua sendo lido
O livro cabe em leitor a partir do fundamental, mas adultas e adultos o reencontram como o primeiro texto que nomeou o aperto de ser menina numa casa onde “criança não tem vontade”. Em 2024, o volume voltou a circular no X e no TikTok como “aquele livro infantil que todos deveriam ler”. A Casa Lygia Bojunga, editora da edição corrente, registrou demanda nova e manteve clube de leitura a partir desse interesse.
Em agosto de 2019, o vereador Clayton Silva (PSC), de Limeira (SP), tentou retirá-lo das bibliotecas escolares sob a alegação de “ideologia de gênero”. A Secretaria de Educação da cidade negou o pedido depois de carta da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil (AEILIJ), que tratou a manobra como tentativa de censura a educadores. O episódio não inventa um assunto que o livro não tinha: o assunto já estava na fala de Raquel em 1976.
Edição e leitura prática
A edição em circulação pela Casa Lygia Bojunga é curta — pouco mais de cem páginas na 35ª edição — e usa a linguagem falada da época, com expressões que hoje pedem nota de rodapé afetiva. Serve a mediador de leitura, professor e leitor solitário. Não é autoajuda infantil nem fábula de “aceite-se”: é o relato de alguém que esconde o que pensa até descobrir que a vontade de escrever não precisa de esconderijo.
Quem já leu A Bolsa Amarela e quer o luto em outra chave encontra em Corda Bamba o desdobramento. Quem quer a estreia da autora, Os Colegas. A bolsa amarela, no entanto, continua sendo o objeto mais reconhecível da obra: um refúgio, um peso e, no fim, um recipiente do qual a menina consegue sair.





