Corda Bamba, de 1979, é o livro em que Lygia Bojunga leva a imaginação até o luto. Uma menina usa uma corda bamba para entrar numa casa estranha, do outro lado da rua, cheia de portas fechadas. A travessia não é número de circo: é o jeito que ela encontra para elaborar a morte inesperada dos pais.
A crítica do Astrid Lindgren Memorial Award trata o volume como obra-prima. Não é elogio solto. Depois de Os Colegas e A Bolsa Amarela, a autora já tinha o método — fantasia que invade o real — e aqui o aplica a uma perda que nenhuma fábula de animal daria conta. A menina não “supera”. Ela inventa um percurso até conseguir sustentar o fato.
A casa, a corda e as portas
O simbolismo é explícito e, ainda assim, não vira esquema. A casa do outro lado da rua concentra o que não se pode dizer de frente. As portas fechadas são o luto em pedaços. A corda bamba é o risco de atravessar: equilíbrio precário, corpo em alerta, a possibilidade de cair no meio do caminho. Lygia não explica o símbolo ao leitor. Deixa a menina usá-lo.
Enciclopédia Itaú Cultural resume o movimento: as fantasias promovem a superação de dificuldades pessoais, e a corda é a via prática de um amadurecimento forçado. A diferença em relação a A Bolsa Amarela é o tipo de aperto. Lá, a família viva oprime a menina. Aqui, a família morreu e o que oprime é a ausência. Os dois livros conversam; não se repetem.
Repercussão e para quem ler
Corda Bamba foi filmado na Suécia, sinal de que a história atravessou idioma sem perder o núcleo. No Brasil, circula menos nas redes do que A Bolsa Amarela, o que o torna, para muita gente, a descoberta depois do livro famoso. É leitura para quem já aguenta tema duro em linguagem de infância — e para mediadores que precisam de um texto sobre morte sem recair em consolo piegas.
A edição da Casa Lygia Bojunga mantém o título no catálogo oficial, ao lado do bloco que em 1982 levou o Hans Christian Andersen: Os Colegas, Angélica, A Bolsa Amarela, A Casa da Madrinha, Corda Bamba e O Sofá Estampado. Quem monta um percurso de leitura pode ir da fábula de animais (Os Colegas) à bolsa das vontades e, só então, à corda. O salto de gravidade é consciente.
Não é livro para “ensinar o luto”. É livro para acompanhar uma menina que não consegue falar a morte dos pais senão inventando um caminho no ar. A literatura de Lygia Bojunga, neste ponto, deixa de ser só liberdade de imaginar e vira instrumento de sobrevivência — o mesmo gesto que o júri sueco descreveria, anos depois, como a capacidade de fazer o leitor entrar no sonho da personagem para atravessar o que a realidade não explica.





