Com só seis livros publicados, Lygia Bojunga virou, em 1982, a primeira escritora brasileira — e a primeira fora do eixo Estados Unidos–Europa — a receber a medalha Hans Christian Andersen, o reconhecimento mais alto que a IBBY concede a um autor de literatura para a infância. Quem busca o nome hoje, porém, quase sempre entra por outra porta: A Bolsa Amarela, de 1976, a história da menina Raquel e das três vontades que ela esconde numa bolsa velha que ninguém mais queria.
Nascida em Pelotas em 26 de agosto de 1932, Lygia Bojunga Nunes cruzou o país ainda menina, fez teatro e rádio no Rio de Janeiro, fundou uma escola rural e só depois virou o nome que a escola, o vestibular e as redes continuam a procurar. O perfil abaixo reúne a trajetória pública, o contexto da obra e o caminho até a Casa Lygia Bojunga, a editora e a fundação que ela mesma criou no Rio.
Quem é Lygia Bojunga
Lygia Bojunga é atriz, tradutora e escritora brasileira, autora de mais de 22 livros traduzidos em mais de 25 países. Assinou por décadas como Lygia Bojunga Nunes. A reputação pública dela não se resume ao rótulo de “literatura infantil”: os livros misturam fantasia e cotidiano para tratar de família, abandono, suicídio, gênero, pobreza e o lugar da criança quando o adulto não escuta.
Em 2004, o governo da Suécia lhe deu o Astrid Lindgren Memorial Award, o maior prêmio em dinheiro da literatura para crianças e jovens. Poucas pessoas no mundo têm as duas honrarias — Andersen e Lindgren — no mesmo currículo. No Brasil, a obra também colecionou Jabuti, selos da FNLIJ, APCA e a Ordem do Mérito Cultural, em 2011.
- Estreia: Os Colegas (1972), depois de ganhar o concurso do Instituto Nacional do Livro em 1971.
- Livro mais buscado: A Bolsa Amarela (1976).
- Hans Christian Andersen: 1982, pelos seis primeiros livros.
- Astrid Lindgren Memorial Award: 2004, pelo conjunto da obra.
- Casa Lygia Bojunga: editora a partir de 2002; fundação cultural em junho de 2006.
De Pelotas ao Rio: fazenda, palco e rádio
A primeira infância foi numa fazenda no Rio Grande do Sul. Aos oito anos a família mudou-se para o Rio de Janeiro e instalou-se em Copacabana. O Carnaval da cidade, segundo a biografia pública, entrou cedo na memória afetiva. Quis ser médica; foi parar no palco.
Em 1951 entrou na companhia Os Artistas Unidos e viajou o interior do Brasil. No mesmo período fez rádio. A imprensa gaúcha registra que ela chegou a encenar ao lado de Fernanda Montenegro e de Henriette Morineau — dado que explica o ouvido teatral da prosa depois, o monólogo interior, a fala que parece cena. Casou-se aos 21 anos; abandonou a carreira de atriz e passou cerca de dez anos escrevendo para rádio e televisão.
Nos anos 1970, com o segundo marido, o inglês Peter, fundou a Toca, escola rural para crianças pobres no interior do estado do Rio. Dirigiu a escola por cinco anos, até fechar. A crítica do prêmio sueco liga essa fase à alfabetização que ela viu nas turnês de teatro: o livro infantil, para ela, nunca foi recanto inocente. Foi o território onde dava para falar do que o adulto fingia não ver.
Os seis livros que levaram o Andersen
A estreia literária veio tarde e já premiada. Os Colegas (1972), ilustrado na origem por Gian Calvi, é uma fábula de cinco animais humanizados — os cães Virinha, Latinha e Flor-de-Lis, o coelho Cara de Pau e o urso Voz de Cristal. Levou o Jabuti em 1973. Em seguida saíram Angélica (1975), A Bolsa Amarela (1976), A Casa da Madrinha (1978), Corda Bamba (1979) e O Sofá Estampado (1980).
Foi por esse bloco — e não por uma obra isolada — que a IBBY, ligada à Unesco, deu o Hans Christian Andersen em 1982. No mesmo ano Lygia mudou-se para a Inglaterra, passando a viver entre Londres e o Rio. A crítica brasileira, às vezes com excesso de analogia, a chamou de herdeira de Monteiro Lobato: a criança resolve conflito pela imaginação. A diferença é o tom. Lobato arma o Sítio; Lygia deixa a fantasia invadir a casa, a favela, a bolsa, o sofá, a corda.
A partir de 1988 voltou ao palco com o monólogo Livro e, nos anos 1990, encenou textos próprios no Brasil e no exterior. O teatro não foi capricho de quem já era autora famosa: a frase dela tem respiração de cena, e os objetos falam como atores — galo, guarda-chuva, alfinete, sofá, cama.
O que a obra faz com a criança
A jurada do Astrid Lindgren descreveu o método com precisão irritante de tão simples: o leitor entra no sonho da personagem. Raquel guarda vontades numa bolsa. Alexandre, menino pobre de favela no Rio, sai à procura da casa da madrinha que o irmão inventou. Em Corda Bamba, a menina atravessa portas fechadas para elaborar a morte dos pais. Em O Meu Amigo Pintor, um menino tenta entender o suicídio de um adulto amigo — livro que a UERJ adotou no vestibular de 2024.
Há humor absurdo e há tema que a prateleira “infantil” costuma evitar. Tchau (1984) traz o abandono da mãe. Nós Três (1987) trata de assassinato. Seis Vezes Lucas (1995) olha o rearranjo da família contemporânea pelo ponto de vista da criança. A crítica Marisa Lajolo situou o centro de força da autora na perda da identidade infantil e na tentativa de reconstruí-la no cotidiano urbano. Não é fábula de moral pronta. A criança pensa. O adulto, muitas vezes, só atrapalha.
Lygia começou a publicar ainda sob a ditadura militar. A própria autora observou, em formulação que o júri sueco registrou, que era mais fácil dizer certas coisas no livro para criança: generais não leem literatura infantil. A frase não transforma a obra em panfleto. Transforma o recorte: a liberdade da imaginação, aqui, é também liberdade de assunto.
Casa Lygia Bojunga: editora, fundação e o prêmio sueco
Em 1996 publicou Feito à Mão, volume composto manualmente com papel reciclado e fotocópia — recusa deliberada da linha industrial. Em 2002 saiu Retratos de Carolina, primeiro livro da editora própria, a Casa Lygia Bojunga, no bairro de Santa Teresa, no Rio. A editora reuniu o catálogo sob o controle da autora: texto, produção, distribuição.
O Astrid Lindgren, em 2004, veio pelo conjunto. Com esse impulso ela criou a Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, que passou a funcionar em junho de 2006, na mesma Santa Teresa, com o objetivo declarado de popularizar o livro no Brasil. Editora e fundação convivem no mesmo nome. A página oficial e as redes da Casa — Instagram e Facebook — são hoje o endereço público da operação, não um perfil pessoal de celebridade.
A imprensa gaúcha, em 2024, registrou que Lygia vive num sítio no interior do Rio de Janeiro e segue ligada aos projetos da Casa. Aos 92 anos deixara de dar entrevistas. O interesse novo por A Bolsa Amarela nas redes levou a fundação a manter o grupo Encontros Literários. Ninfa Parreiras, vice-presidente da fundação, descreveu demanda de leitores de várias cidades, inclusive do Rio Grande do Sul.
Como ler Lygia Bojunga hoje
Para quem chega pela escola, A Bolsa Amarela continua a porta mais larga: curto, falado, cheio de invenção, e ainda capaz de irritar quem quer literatura “sem assunto”. Em 2019, um vereador de Limeira (SP) tentou tirá-lo de bibliotecas escolares sob a alegação de “ideologia de gênero”; a Secretaria de Educação da cidade recusou o pedido depois de carta da AEILIJ. O episódio diz menos sobre moda do que sobre o que o livro sempre fez: Raquel quer ser menino, quer crescer e quer escrever, porque o mundo adulto reserva liberdade ao homem.
Para quem quer a estreia, Os Colegas. Para o luto em chave de imaginação, Corda Bamba — a crítica sueca o trata como obra-prima, e o livro chegou a ser filmado na Suécia. Para o tema do suicídio e para o vestibular, O Meu Amigo Pintor. Para a fase em que a autora vira editora de si mesma, Retratos de Carolina. As páginas de projeto deste perfil aprofundam cada um desses livros com proposta, público e contexto de leitura.
No mapa da literatura brasileira para a infância, Lygia não ocupa o mesmo recorte de um autor contemporâneo como Otávio Júnior, cuja obra parte da favela em primeira pessoa e da promoção da leitura em território periférico. O que as aproxima é o recusa de tratar a criança como destinatária de lição. A diferença está no método: nela, a fantasia invade o real até o galo e a guarda-chuva ganharem voz; nele, o cotidiano da comunidade já basta como matéria poética.
Perguntas frequentes sobre Lygia Bojunga
Lygia Bojunga ainda está viva?
Sim. Nasceu em 26 de agosto de 1932, em Pelotas, e em 2024 a imprensa a descreveu vivendo no interior do Rio de Janeiro, ligada à Casa Lygia Bojunga. Não há registro público de falecimento.
Qual livro de Lygia Bojunga ler primeiro?
A Bolsa Amarela é o volume mais procurado e o mais citado em sala de aula. Os Colegas mostra a estreia em fábula de animais. Corda Bamba e O Meu Amigo Pintor pedem leitor disposto a tema duro — luto e suicídio — sem abandonar a linguagem da infância.
Lygia Bojunga só escreveu para criança?
A obra foi catalogada como infantojuvenil, mas a própria autora insistiu numa literatura que o objeto-livro adequa a idades diferentes. Retratos de Carolina atravessa a personagem até a vida adulta. Há também teatro, textos sobre o ofício de escrever e o volume artesanal Feito à Mão.
A Casa Lygia Bojunga, no Rio, segue como o endereço institucional da obra: editora dos próprios livros e fundação de popularização da leitura. O que permanece, para quem lê de fato, não é a medalha de 1982. É a menina que esconde vontade numa bolsa amarela e descobre que uma delas — escrever — não pesa mais.






