Os Colegas é a estreia literária de Lygia Bojunga e o livro que tira a atriz e roteirista de rádio do anonimato editorial. Escrito para um concurso do Instituto Nacional do Livro, ganhou o primeiro lugar em 1971 e saiu em 1972, com ilustrações de Gian Calvi. No ano seguinte levou o Jabuti. Sem esse volume, o bloco que em 1982 convenceria a IBBY a dar o Hans Christian Andersen simplesmente não existiria.
A história reúne cinco animais humanizados que se encontram e viram amigos: os cães Virinha, Latinha e Flor-de-Lis, o coelho Cara de Pau e o urso Voz de Cristal. A fábula de bichos é o gênero mais antigo da prateleira infantil; Lygia usa o molde para o que a crítica depois reconheceria como marca: psicologia, humor e a descoberta de que ninguém aguenta o mundo sozinho.
O que o livro faz de diferente
Os Colegas ainda não tem a menina Raquel nem a corda bamba. Tem a turma. A amizade entre diferentes — cão, coelho, urso — organiza a aventura e o conflito. O recurso dos animais falantes, que voltaria em Angélica (a porca que quer ser andorinha) e em O Sofá Estampado (o tatu Vítor), aparece aqui como laboratório: a autora testa o coloquial, o absurdo e a lealdade como valor prático, não como moral de cartilha.
O júri do Astrid Lindgren, ao reler a estreia décadas depois, notou que já nesses primeiros livros a comédia dos bichos humanizados vinha colada a uma elaboração psicológica. Não é “história de animal para criança pequena” no sentido ornamental. É o ensaio do método que A Bolsa Amarela e Corda Bamba levariam ao extremo: a imaginação como modo de atravessar o que a vida impõe.
Para quem ler Os Colegas
O livro funciona para o leitor mais novo da obra de Lygia — quem ainda não está pronto para suicídio, abandono ou a discussão de gênero de A Bolsa Amarela. Também funciona para quem quer entender a origem da carreira: a autora tinha quarenta anos, vinda do teatro, do rádio e da escola rural Toca, quando o INL premiou o original. A literatura não foi hobby de quem já era famosa. Foi a virada de ofício.
A edição atual da Casa Lygia Bojunga mantém o texto no catálogo oficial da autora, o mesmo selo que reúne A Bolsa Amarela, Corda Bamba e o restante da obra. Quem ensina literatura infantojuvenil brasileira dos anos 1970 encontra aqui o ponto de partida documentado: concurso, Jabuti, depois o ciclo de seis livros que o mundo passou a tratar como conjunto.
Ler Os Colegas depois de A Bolsa Amarela é ver o rascunho da liberdade que Raquel vai exigir. Ler antes é entrar pela porta que a própria Lygia usou: cinco colegas improváveis, uma amizade que não pede permissão ao mundo adulto, e uma escritora que ainda estava descobrindo que o livro para criança podia carregar o peso que o palco e o rádio já conheciam.





