O Meu Amigo Pintor é o livro em que Lygia Bojunga encara o suicídio sem sair da linguagem da infância. Publicado em 1987 pela Agir — depois de uma primeira versão, em 1983, como 7 Cartas e 2 Sonhos, pela Berlendis & Vertecchia — acompanha um menino que tenta entender a morte voluntária de um pintor adulto, amigo dele.
O júri do Astrid Lindgren descreveu o núcleo com uma frase seca: o livro gira em torno dos pensamentos de um menino sobre o suicídio inexplicável de um amigo adulto. Não há detetive. Não há lição de “peça ajuda” no tom de campanha. Há um garoto que precisa nomear o que os adultos ao redor talvez prefiram encobrir.
Do título antigo ao vestibular
A mudança de título, de 7 Cartas e 2 Sonhos para O Meu Amigo Pintor, desloca o eixo: das formas (cartas, sonhos) para a relação. O pintor não é só o morto. É o amigo. A arte entra como ofício do adulto e como enigma para a criança — o que alguém que pinta faz com a vida quando decide encerrá-la. A obra já foi adaptada para o teatro, o que devolve o texto ao palco de onde Lygia veio.
Em 2023, a UERJ adotou O Meu Amigo Pintor como leitura obrigatória do vestibular estadual de 2024, no primeiro exame de qualificação. O dado muda o público: o livro deixa de circular só em mediação infantil e passa a ser objeto de prova, ensaio e discussão de adolescente que talvez nunca tenha lido A Bolsa Amarela. A escolha da banca reconhece o que a crítica já dizia: o texto aguenta pergunta adulta sem perder o ponto de vista da criança.
Para quem ler e o que esperar
Não é o volume de entrada. Quem quer o humor da bolsa e do galo começa por A Bolsa Amarela. Quem quer a estreia, Os Colegas. O Meu Amigo Pintor pede leitor disposto a ficar com uma pergunta que não se resolve em reviravolta. O suicídio está lá; a literatura está no trabalho do menino para não transformar o amigo numa ausência muda.
Lygia já havia tratado o tema em 7 Cartas e 2 Sonhos. A republicação de 1987 é a forma que o catálogo da Casa Lygia Bojunga preserva e que a escola passou a indicar. Serve a professor de literatura, a vestibular e a mediador que precise de um texto brasileiro sobre morte voluntária sem copiar o tom de romance adulto. A linguagem continua falada, próxima, com a mesma recusa de discurso pronto que marca o restante da obra.
Lado a lado com Corda Bamba, forma o par do luto na bibliografia: ali, a morte dos pais num acidente; aqui, a escolha de um adulto amigo. Nos dois, a criança não é espectadora. É quem precisa inventar um caminho — carta, sonho, pergunta, palco — para não ficar sozinha com o fato. Por isso o livro permanece: não porque suaviza o suicídio, mas porque recusa abandonar o menino no meio da frase.





