As cinco estações do amor (2001) fecha a Trilogia de Brasília e é o romance de João Almino mais premiado fora do Brasil: venceu o Prêmio Casa de las Américas em 2003, em Cuba. O livro ganhou nova edição pela Editora Record, com capa nova, uma seção de fortuna crítica e texto de orelha assinado pela escritora Adriana Lisboa.
Uma narradora feminina e um acerto de contas
A narradora é uma mulher, Ana — chamada também de Diana —, que revisita os anos de juventude e faz um acerto de contas com a geração marcada pelos anos 1960 e 1970. O romance contrapõe a Brasília atual, marcada pela violência, à cidade que os personagens conheceram quando a utopia parecia possível. O próprio autor descreveu o livro como "uma reflexão contemporânea sobre os dilemas de uma juventude perdida, a violência, os papéis sexuais e as mutações no amor e amizade".
A crítica Heloísa Teixeira viu na adoção da perspectiva feminina um gesto de "imersão no universo do outro". Em ensaio de 2001, Silviano Santiago destacou a centralidade da personagem e o modo como a narrativa explora amizade, desejo, violência e transformação social às vésperas do novo milênio. Já o crítico João Cezar de Castro Rocha chamou atenção para a construção da narradora e para o modo como a obra converte a intertextualidade em um hipertexto, no qual ler e escrever se tornam atividades indissociáveis. Em análise na Luso-Brazilian Review, o professor David Jackson, da Universidade de Yale, observou que o romance acompanha a construção material e simbólica da capital e insere os personagens num espaço de estranhamento, com trajetórias que funcionam como alegorias de transformação.
Uma porta de entrada para o ciclo de Brasília
É uma boa forma de conhecer o ciclo de Brasília sem começar pelo primeiro volume: a narrativa é a mais linear da trilogia, mas mantém a pergunta que atravessa a obra do autor — o que aconteceu com os projetos de transformação de uma geração inteira. A obra foi publicada em inglês como The Five Seasons of Love, além de edições em espanhol e italiano.
A nova edição, publicada pela Record, também traz material crítico que ajuda a situar o romance na produção de João Almino e a acompanhar a recepção do livro desde o lançamento.





