O livro das emoções (2008) é narrado em primeira pessoa por um fotógrafo cego — e essa escolha define o romance inteiro. A cegueira, aqui, não é apenas tema: é um modo de narrar, feito de memória, imaginação e descrição minuciosa daquilo que o narrador não vê.
Um narrador que reinventa o olhar
A partir desse ponto de vista, João Almino monta um painel de personagens que atravessam a sociedade brasileira contemporânea, com a política e a vida privada se misturando o tempo todo. O crítico Moacyr Scliar, em resenha na Folha de S.Paulo, aproximou a construção do livro do cinema de Robert Altman, por causa do painel múltiplo de personagens que refletem o país. A narrativa integra o ciclo batizado de Quinteto de Brasília e foi publicada em inglês como The Book of Emotions.
Em estudo publicado na Luso-Brazilian Review, o professor Pedro Meira Monteiro, da Universidade de Princeton, observou que a ficção de Almino revisita o legado libertário dos anos 1960, marcado pela oscilação entre utopia e frustração, e que o cinema e a fotografia funcionam como chaves para entender uma prosa metanarrativa permeada de lirismo. A fotografia, aliás, aparece no romance como tema e como procedimento: o narrador descreve imagens que não pode ver e transforma a lembrança em cena.
Lançado em 2008, O livro das emoções fica entre As cinco estações do amor (2001) e Cidade livre (2010) na cronologia do Quinteto de Brasília, e ajuda a fechar o painel da cidade que atravessa a obra do autor.
Prêmios e leitura
Em 2014, a edição em inglês foi indicada ao International IMPAC Dublin Literary Award, um dos prêmios de ficção mais disputados do mundo. O romance também aparece em listas de leitura recomendada e em estudos acadêmicos sobre a literatura brasileira contemporânea.
É leitura para quem procura ficção intimista que não abre mão do panorama social: um narrador que perdeu a visão e, com ela, precisou reinventar a forma de olhar o mundo. O livro dialoga diretamente com os outros romances do autor ambientados em Brasília, mas pode ser lido de forma independente.





