Homem de papel, publicado pela Editora Record em 2022, é o oitavo romance de João Almino e nasce de uma aposta literária explícita: devolver o conselheiro Aires, personagem de Esaú e Jacó e Memorial de Aires, de Machado de Assis, ao Brasil do século XXI. Na versão de Almino, Aires desembarca em Brasília e passa a observar o país contemporâneo com o olhar de quem já atravessou outras eras.
Uma continuação imaginativa de Machado de Assis
A narrativa é assumidamente metaficcional. O conselheiro se reinventa narrando a própria história, conversa com interlocutores do presente — entre eles uma diplomata chamada Flor — e comenta a política e os costumes do tempo. O livro pode ser lido como continuação imaginativa da obra machadiana e, na leitura da escritora Ana Cristina Braga Martes, como uma paródia do Memorial de Aires, com personagens que também aparecem em Esaú e Jacó. A ironia e a intertextualidade servem, nesse caso, para comentar a história e a política brasileiras.
O professor Hélio de Seixas Guimarães, da USP, observou que Almino retoma Aires como narrador e protagonista e o transporta para um Brasil regido pela ignorância e pela estupidez, em contraste com os cenários cariocas de Machado. O pesquisador Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, assinou o posfácio: para ele, a transposição confere movimento ao personagem e abre espaço para um exercício de metaficção em que Aires se reinventa ao narrar-se de novo.
Recepção crítica e prêmios
Em O Globo, a pesquisadora Stefania Chiarelli destacou a continuidade de procedimentos machadianos, como a autorreflexividade da narrativa e a convocação do leitor para participar da trama. No Correio Braziliense, a resenha de Vera Lúcia de Oliveira acompanhou as aventuras do conselheiro Aires em Brasília pelo olhar de João Almino.
Homem de papel foi um dos semifinalistas do Prêmio Jabuti de 2023 na categoria romance literário e um dos dez finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura de 2023. É uma porta de entrada para quem quer acompanhar a produção mais recente do autor e, ao mesmo tempo, um livro que pressupõe — e recompensa — a familiaridade com a obra de Machado de Assis.
Para quem é a leitura
Vale para leitores de ficção brasileira contemporânea, para quem gosta de romances que discutem a própria literatura e para quem se interessa por narrativas em que Brasília aparece não como cenário, mas como personagem política. Quem nunca leu Machado entra pela história; quem já leu reconhece o jogo desde as primeiras páginas.





