Cidade livre (2010) é o quinto romance do ciclo de Brasília de João Almino e o mais diretamente ligado à fundação da capital. O narrador organiza o relato como um blog, incorporando comentários de outros blogueiros, e reconstrói o período da construção de Brasília pela perspectiva de quem vivia o canteiro: candangos, empreiteiros, políticos, idealistas, místicos de uma seita salvacionista e oportunistas — inclusive o pai do narrador, um aproveitador das negociatas do período. A crítica observou que o romance confirma o autor, ainda que a contragosto, na posição de "romancista de Brasília".
Um painel da Brasília em construção
O romance registra a passagem de visitantes ilustres pela cidade em obras, como Aldous Huxley, Fidel Castro, André Malraux, John dos Passos e Elizabeth Bishop, e episódios como a morte do engenheiro Bernardo Sayão, atingido por uma árvore durante os trabalhos, no governo de Juscelino Kubitschek. Os personagens circulam entre a euforia da construção e a suspeita de que o projeto modernista carregava suas próprias contradições.
A crítica Walnice Nogueira Galvão observou que a acumulação de dados históricos e estatísticos funciona como um recurso deliberado de dissimulação ficcional, criando um terreno narrativo instável e ambíguo — o que ela chamou de "manhas da ficção". Em resenha da Folha de S.Paulo, o escritor Moacyr Scliar situou Almino na tradição dos diplomatas-escritores brasileiros e destacou que Brasília, síntese do moderno e do arcaico, motivou a expansão do projeto do autor.
Prêmios e traduções
Cidade livre venceu o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura em 2011 e foi finalista do Prêmio Portugal Telecom e do Prêmio Jabuti no mesmo ano. Ganhou edição em inglês como Free City (2013), indicada ao International IMPAC Dublin Literary Award em 2015, e foi traduzido para o francês.
Para o leitor interessado na história de Brasília, o livro funciona como romance e como painel de época, sem abrir mão da ambiguidade: a utopia modernista e os movimentos predatórios do real aparecem lado a lado, e a cidade se transforma em microcosmo do país. É também um bom ponto de partida para entender por que a capital virou matéria central na obra de João Almino.





