Celso Furtado passou boa parte da vida falando de estrutura produtiva, centro e periferia. Em Criatividade e dependência na civilização industrial, originalmente de 1978, ele desloca o eixo: desenvolvimento é um processo de criatividade, mais do que de acumulação. Sem a dimensão cultural — valores, aspirações, padrões de comportamento — o estudo tradicional do crescimento fica cego. A pergunta deixa de ser só “como acumular capital” e vira “por que certas sociedades explodem em invenção e outras emperram”.
A edição da Companhia das Letras (240 páginas, ISBN 978-85-359-1218-0) saiu em 29 de maio de 2008. O selo descreve o livro como uma súmula do pensamento do autor, “antiacadêmico”, sem tônica única, feito para ser lido em várias direções. Prefácio posterior de Alfredo Bosi, em reimpressão do mesmo selo, confirma o estatuto de obra de inflexão, não de apêndice.
Cultura, invenção e subdesenvolvimento
Furtado pergunta por que houve explosão criativa no século de Péricles ou no de Leonardo da Vinci — e, no sentido inverso, que fatores inibem a criatividade em certas sociedades. A resposta, esboçada ao longo do livro, passa pela criação intelectual, pela invenção cultural e pela clivagem entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos no surgimento da civilização industrial. Desenvolvimento, nessa chave, inclui inovação na cultura material, mas também arte e pesquisa científica.
O leitor encontra páginas sobre China e globalização do capitalismo que a editora considera premonitórias, escritas três décadas antes do debate em que hoje circulam. Não é um livro de previsão. É um livro que recusa tratar a periferia como máquina atrasada à espera de tecnologia importada, e insiste que dependência também se joga no plano da imaginação social: o que se deseja, o que se copia, o que se consegue inventar de fato.
- Desenvolvimento como criatividade, não só como acúmulo de capital.
- Cultura como variável ausente nos estudos tradicionais de crescimento.
- Civilização industrial, dependência e bloqueio da invenção na periferia.
- Ensaio híbrido: história, filosofia e economia, sem formato de manual.
Quem ganha com esta leitura
Ganha quem já atravessou a Formação e sente falta de uma teoria da cultura dentro do desenvolvimentismo. Ganha estudante de ciências humanas que desconfia da economia reduzida a conta nacional. Ganha leitor de política cultural — o Furtado ministro da Cultura, anos depois, não nasce do nada: este livro já trata criação artística e pesquisa como parte do desenvolvimento, não como enfeite.
Quem quer um roteiro de política industrial com metas e instrumentos vai se perder. O tom é ensaístico, às vezes próximo da história das civilizações. Também não é biografia: para a vida, a Obra autobiográfica é o volume certo. Aqui o autor pensa, com liberdade, o elo entre cultura e atraso.
Onde este livro senta na estante
Cronologicamente, está no Furtado do exílio maduro, depois do Mito do desenvolvimento econômico. Tematicamente, é o volume que mais conversa com quem chega ao autor pela Academia Brasileira de Letras ou pela passagem no Ministério da Cultura, e não só pela Sudene. A Companhia das Letras o mantém ao lado da Formação e da Economia latino-americana, o que ajuda: os três cobrem país, continente e civilização.
A capa da edição brasileira traz o subtítulo completo, na civilização industrial. Na Amazon, o ASIN 8535912185 aponta para essa edição. Como outros títulos do autor no selo, pode aparecer em impressão sob demanda; o texto é o da reedição de 2008, não um resumo didático posterior.
Como ler sem esperar um tratado fechado
O próprio marketing da editora avisa: não há tônica única. Vale ler como conjunto de incursões — Grécia, Renascimento, industrialização, periferia, China — em torno de uma obstinação: sem criatividade autônoma, a periferia permanece dependente mesmo quando acumula máquinas. Essa obstinação é o que justifica o livro como projeto próprio, e não como capítulo extra da Formação.





