Em 1974, no exílio, Celso Furtado publicou um ensaio curto e áspero: o desenvolvimento econômico, tal como o centro o vendia à periferia, era um mito. Não um mito no sentido de lenda inofensiva, e sim de meta impossível de generalizar. Se todas as nações tentassem copiar o padrão de afluência dos países ricos com base em recursos não renováveis, o planeta não aguentaria — ou a exclusão na periferia pioraria para preservar o consumo do centro.
A edição da Ubu na coleção Explosante devolveu O mito do desenvolvimento econômico ao debate com prefácio de Leda Paulani, posfácio de Ndongo Samba Sylla e estabelecimento do texto por Rosa Freire d'Aguiar. São 160 páginas. O ISBN da edição impressa é 978-85-7126-184-6. O e-book na Amazon corresponde a essa linha editorial Explosante.
A tese, sem eufemismo
Furtado tensiona três noções que ainda circulam soltas: desenvolvimento, modernização e convergência. Países “em desenvolvimento” não estariam numa fila que, com paciência e investimento, os levaria ao clube dos ricos. A relação centro-periferia no capitalismo reproduz dependência. O estilo de crescimento dos países centrais pressiona recursos naturais de um jeito que não se universaliza. Ou vem catástrofe ecológica, ou a periferia fica de fora dos frutos desse estilo.
O livro também situa o Brasil no panorama global e analisa a emergência da era dos oligopólios. Quem conhece Furtado só por Formação econômica do Brasil encontra aqui um deslocamento: da história longa da colônia e do café para o teto ecológico e geopolítico do crescimento copiado.
- Crítica da convergência entre países pobres e ricos no capitalismo global.
- Limite ecológico do padrão de consumo dos países centrais.
- Dependência entre centro e periferia, com o Brasil no mapa.
- Ensaio curto, mais argumentativo do que narrativo.
Para quem ler agora
O texto interessa a quem discute transição energética, desigualdade internacional, crítica ao produtivismo e história do pensamento desenvolvimentista. Também interessa a estudante que já leu a Formação e quer o Furtado dos anos 1970, menos ocupado em reconstruir o século XVI e mais ocupado em dizer que a meta oficial do “alcançar o centro” não fecha a conta.
Não é um relatório de sustentabilidade nem um manifesto ambientalista contemporâneo. Furtado escreve como economista estruturalista, com o vocabulário da época: centro, periferia, oligopólio, estilo de desenvolvimento. A atualidade está no problema, não no jargão de conferência climática. Quem busca um guia prático de política ambiental de 2026 vai se frustrar; quem busca a genealogia da desconfiança brasileira em relação ao mito do catching-up sai melhor servido.
Relação com o restante da obra
O ensaio conversa com Desenvolvimento e subdesenvolvimento (1961) e com a crítica da dependência que Furtado elaborou no exílio. A diferença de tom é visível: aqui o desenvolvimento deixa de ser sobretudo um problema de estrutura produtiva nacional e vira também um problema de teto material do sistema. Por isso a reedição da Ubu, meio século depois, não soa como peça de arquivo. Leda Paulani e Ndongo Samba Sylla deslocam o texto para o debate atual sem fingir que Furtado tenha escrito um tratado de ecologia política do século XXI.
Na prateleira, cabe depois da Formação e antes de Criatividade e dependência, em que a variável cultural ganha peso. Quem prefere o testemunho pessoal do exílio vai à Obra autobiográfica; quem quer o continente, a Economia latino-americana.
Edição e acesso
A Ubu vende a brochura 14 × 21 cm. Na Amazon, o e-book da coleção Explosante é a rota mais direta para o mesmo estabelecimento de texto. Vale distinguir essa edição da reimpressão antiga da Paz e Terra, que circula em sebos com outro ISBN. Para citação e leitura corrente, a Explosante é a edição a preferir: tem aparato crítico e texto revisto.





