Antes de virar tratado, a vida de Celso Furtado já era deslocamento: Pombal, Recife, Rio, Nápoles da FEB, Paris da Sorbonne, Santiago da Cepal, Cambridge, Sudene, cassação, Yale, de novo Paris. A Obra autobiográfica junta os três livros em que ele próprio narrou esse percurso: A fantasia organizada, A fantasia desfeita e Os ares do mundo. A edição da Companhia das Letras, coordenada por Rosa Freire d'Aguiar (640 páginas, ISBN 978-85-359-2457-2, lançada em 22 de julho de 2014), é o volume único mais útil para quem quer a pessoa sem abrir mão do economista.
Não é diário íntimo nem ajuste de contas. É autobiografia intelectual: ambientes, cargos, livros, encontros. Villa-Lobos, Lévi-Strauss, Jean-Paul Sartre, Amartya Sen, Juan Perón, Fernand Braudel, Ernesto Sabato, Glauber Rocha e Che Guevara atravessam o mosaico. Gérard Lebrun falou em cosmopolitismo e “odor de heterodoxia”. Francisco Iglesias, em força narrativa. Edmar Bacha, em testemunho de uma época.
Os três movimentos
A fantasia organizada cobre o Rio dos anos 1940, o deslumbramento do jovem recém-chegado da Paraíba, a Europa destruída do pós-guerra no doutorado em Paris, os anos na Cepal em que se formulava um pensamento econômico de influência mundial, e Cambridge na convivência com contemporâneos da tradição de Keynes. É o livro da formação e da invenção do método.
A fantasia desfeita cobre os seis anos com Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart: Sudene, Ministério do Planejamento, o desenho de um Estado desenvolvimentista que o golpe de 1964 interrompe. O título já diz o tom. Os ares do mundo narra o exílio acadêmico em Paris, Yale, Cambridge e Columbia, as viagens ao bloco comunista, à Ásia e à África, e a obra teórica escrita longe do Brasil. Os três juntos explicam por que a biografia pública de Furtado não cabe numa linha de “economista da Cepal”.
- A fantasia organizada: formação, Cepal, Cambridge.
- A fantasia desfeita: Sudene, planejamento, golpe.
- Os ares do mundo: exílio, cátedras, circulação internacional.
- Edição definitiva em um volume, pela Companhia das Letras.
Para quem este volume vale mais que o ensaio teórico
Vale para quem já ouviu falar da Sudene e quer ver o órgão pelo olhar de quem o inventou. Vale para quem lê a Formação e desconfia da figura de autor sem rosto. Vale para historiador da intelectualidade brasileira, da diplomacia e do exílio de 1964. Vale, ainda, para quem pesquisa a Cepal por dentro: Furtado descreve o ambiente, não só o modelo centro-periferia.
Quem precisa apenas da tese sobre o café e a indústria deve ir direto à Formação. Quem quer a crítica ecológica do crescimento, ao Mito. A autobiografia não resume esses livros; conta como eles foram possíveis. Também não substitui os Diários intermitentes nem a Correspondência intelectual, volumes posteriores também organizados por Rosa Freire d'Aguiar, mais fragmentários.
Como o livro muda a leitura da autoridade
Lido depois da biografia pública, o volume corrige dois simplismos. O primeiro: tratar Furtado como técnico que “passou pela política”. Ele esteve no centro de decisões de JK e Jango e pagou com a cassação. O segundo: tratar o exílio como parêntese. Foram vinte e um anos, com produção teórica densa e cátedra em Paris. A autobiografia dá carne a essas frases. Mostra o sertanejo no Rio, o doutorando na Europa devastada, o superintendente da Sudene, o professor que não voltou no dia seguinte à Anistia.
Na estante da Companhia das Letras, é o volume mais grosso do autor e o mais próximo de uma vida inteira. A edição de 2014 unifica o que a Paz e Terra havia publicado em três tomos nos anos 1980 e 1990. Para citação, o ISBN 978-85-359-2457-2 evita a confusão com os tomos avulsos antigos.
Edição e compra
Brochura 16 × 23 cm, 640 páginas. Há e-book. Na Amazon, o item 8535924574 corresponde a essa edição da Companhia das Letras. Quem quiser só um primeiro contato com o pensamento, sem a vida, pode começar pelo Essencial Celso Furtado, antologia Penguin/Companhia das Letras; quem quiser a pessoa no centro da cena histórica, este é o livro.





