Em julho de 1961, um economista nascido no sertão de Pombal apertou a mão de John Kennedy na Casa Branca para falar do Nordeste. Celso Monteiro Furtado já tinha criado a Sudene a pedido de Juscelino Kubitschek e, dois anos antes, publicado Formação econômica do Brasil, o livro que ainda organiza a conversa sobre ciclos de riqueza e estruturas de atraso no país.
Quem busca o nome dele hoje raramente quer só uma ficha de ministro. Quer entender por que um estruturalista da Cepal insistiu que o subdesenvolvimento não é uma fila de espera rumo ao progresso — e como essa leitura virou órgão público, cassação, cátedra em Paris e cerca de trinta livros.
De Pombal à economia, passando pelo Direito e pela guerra
Celso Furtado nasceu em 26 de julho de 1920 em Pombal, no alto sertão da Paraíba, filho de Maurício Medeiros Furtado e Maria Alice Monteiro Furtado. Estudou no Liceu Paraibano e no Ginásio Pernambucano, no Recife, antes de se mudar em 1939 para o Rio de Janeiro. No ano seguinte entrou na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, e concluiu o bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais em 1944 — o mesmo ano em que foi convocado para a Força Expedicionária Brasileira e serviu na Itália.
A virada profissional veio depois da guerra. Em 1946 ele ingressou no doutorado em Economia da Universidade de Paris-Sorbonne, com tese orientada por Maurice Byé sobre a economia brasileira no período colonial, defendida em 1948. Na capital francesa conheceu a química argentina Lucia Piave Tosi, com quem se casou. De volta ao Brasil, passou pelo DASP e pela Fundação Getúlio Vargas antes de aceitar, em 1949, o convite para a recém-criada Comissão Econômica para a América Latina, a Cepal, em Santiago do Chile.
Cepal, Cambridge e o livro que ficou clássico
Na Cepal, sob a direção de Raúl Prebisch, Furtado entrou no laboratório que formulava o estruturalismo latino-americano: centro industrializado, periferia agrícola, deterioração dos termos de troca, papel do Estado. Entre 1953 e 1955 presidiu no Rio o Grupo Misto Cepal-BNDES, estudo que alimentou o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek. Dirigiu a Divisão de Desenvolvimento da Cepal e fez trabalhos sobre México e Venezuela.
Em 1957 foi para o King's College, em Cambridge, estudar com Nicholas Kaldor. Foi ali que escreveu Formação econômica do Brasil, publicado no Brasil em 1959. O manuscrito enviado à editora extraviou-se; um microfilme de última hora salvou o texto. A Companhia das Letras reeditou o volume, descrito por Ricardo Bielschowsky na Revista de Economia Política como o livro mais famoso da literatura econômica brasileira. A combinação era rara: historiografia econômica feita por alguém com formação sólida de economista, lendo açúcar, ouro, café, escravidão, imigração e indústria como estruturas, não como anedotas de ciclo.
Sudene, Ministério do Planejamento e o golpe
De volta ao Brasil, Furtado criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste a pedido de Kubitschek, em 1959, e a dirigiu até 1964. A Sudene nasceu da recusa de tratar a seca e a pobreza nordestinas como fatalidade regional. Em 1962, no governo João Goulart, tornou-se o primeiro ministro do Planejamento do Brasil e desenhou o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, com regras rígidas para déficit público e inflação. Em 1963 voltou à superintendência da Sudene e implantou a política de incentivos fiscais para investimentos na região.
O Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964, colocou seu nome na primeira lista de cassados. Perdeu direitos civis e políticos por dez anos e entrou num exílio de vinte e um anos. Passou por Santiago, pelo Centro de Estudos do Crescimento Econômico de Yale e, a partir de 1965, pela Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, onde permaneceu duas décadas. Também ensinou na American University, em Columbia e de novo em Cambridge.
- Formação: Direito na UFRJ (1944) e doutorado em Economia na Sorbonne (1948).
- Estado: Cepal, Sudene, Ministério do Planejamento, embaixada junto à Comunidade Econômica Europeia e Ministério da Cultura.
- Livros de entrada: Formação econômica do Brasil, O mito do desenvolvimento econômico e A economia latino-americana.
- Exílio: cassado em 1964; vinte e um anos fora, com cátedra longa em Paris.
O que Celso Furtado entendia por subdesenvolvimento
A tese que atravessa a obra é seca e ainda incomoda. Subdesenvolvimento, para Furtado, não é a infância do capitalismo nem uma etapa que os países ricos já teriam cumprido. É uma forma de organização social no interior do sistema, uma configuração que se reproduz em distintos níveis de crescimento. O Brasil teria se industrializado de modo indireto, como consequência do dinamismo dos centros, e essa industrialização dependente não se desfaz sozinha.
Daí o método histórico-estrutural: ler a economia brasileira pela estrutura produtiva de cada período — cana, ouro, café, indústria — e pela convivência entre uma economia de subsistência de baixíssima produtividade e outra, dinâmica, voltada à exportação. Inflação e desigualdade de renda aparecem, nessa leitura, como problemas crônicos de uma periferia que tenta se industrializar sem reorganizar o excedente. Furtado defendia intervenção estatal para redirecionar esse excedente do consumo conspícuo das classes altas para o setor produtivo. Não era uma receita de ruptura total do sistema; era um diagnóstico de que o mercado, deixado ao léu da especialização agrícola, não fecha o atraso.
Em 1974, já no exílio, publicou O mito do desenvolvimento econômico, em que a crítica ganha limite ecológico: a meta de levar todas as nações ao padrão de afluência dos países centrais, baseada em recursos não renováveis, seria insustentável. A edição recente da Ubu, na coleção Explosante, devolveu o ensaio ao debate contemporâneo. Quem chega a Furtado pela história econômica brasileira costuma seguir para esse texto quando a pergunta deixa de ser “como o Brasil se formou” e vira “até onde o desenvolvimento copiado do centro pode ir”.
Volta, Ministério da Cultura e a cadeira 11
Com a Anistia de 1979, Furtado voltou a circular no Brasil, ainda como diretor de pesquisas da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Em 1979 casou-se com a jornalista e tradutora Rosa Freire d'Aguiar, que mais tarde organizaria diários, correspondência e edições da obra. Filiou-se ao PMDB em 1981, participou da Comissão do Plano de Ação do Governo a convite de Tancredo Neves e foi nomeado embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Europeia, em Bruxelas.
José Sarney o convocou para o Ministério da Cultura, onde ficou de 14 de fevereiro de 1986 a 28 de julho de 1988. À frente da pasta, criou a primeira legislação brasileira de incentivos fiscais à cultura. Nos anos seguintes participou de comissões internacionais ligadas a ONU, Unesco, cultura, desenvolvimento e bioética. Em 7 de agosto de 1997 foi eleito para a cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Darcy Ribeiro; tomou posse em 31 de outubro, recebido por Eduardo Portella. No discurso lembrou o parentesco com Lúcio de Mendonça, fundador da cadeira.
Morreu no Rio de Janeiro em 20 de novembro de 2004. No ano seguinte surgiu o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. A biblioteca com os 7.542 livros que lhe pertenciam foi inaugurada em 2009; desde 2019 o acervo bibliográfico e documental está no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, aberto à consulta. A Companhia das Letras mantém em catálogo os títulos centrais, e o perfil de autor na Amazon concentra edições correntes.
Por que o nome continua na busca
Furtado interessa a quem estuda história econômica, desenvolvimento regional, Cepal, Sudene, Plano Trienal, industrialização periférica e política cultural. Também interessa a quem lê o Brasil contemporâneo e desconfia da ideia de que atraso é só atraso de relógio. No circuito da economia brasileira de projeção internacional há trajetórias muito distintas — a de José Alexandre Scheinkman, por exemplo, corre pela teoria, pelas finanças e pelas universidades americanas. Furtado permanece o intérprete que tentou transformar diagnóstico estrutural em órgão de Estado. A tag de economia reúne esse tipo de presença pública: gente cuja obra muda o modo de nomear o país.
A página de um economista morto em 2004 não substitui o arquivo nem o tratado. Serve para situar a pessoa, a sequência dos cargos, o método e os livros pelos quais ainda se entra na conversa. O detalhe está nas obras: Formação econômica do Brasil para a história longa; A economia latino-americana para o continente; Criatividade e dependência para o elo entre cultura e desenvolvimento; a Obra autobiográfica para o testemunho de Cepal, Sudene, golpe e exílio.
Perguntas frequentes sobre Celso Furtado
Quem foi Celso Furtado?
Celso Monteiro Furtado foi um economista brasileiro nascido em Pombal, Paraíba, em 1920, formulador do estruturalismo associado à Cepal, criador da Sudene, primeiro ministro do Planejamento e, depois do exílio, ministro da Cultura e imortal da Academia Brasileira de Letras.
Qual é o livro mais conhecido de Celso Furtado?
Formação econômica do Brasil, publicado em 1959, escrito em Cambridge. É o ponto de partida mais citado para a história econômica do país na chave centro-periferia.
Celso Furtado foi ministro de quê?
Do Planejamento, no governo João Goulart, entre 1962 e 1964, e da Cultura, no governo José Sarney, entre 1986 e 1988.
Onde consultar a obra e o acervo?
Edições correntes saem pela Companhia das Letras e pela Ubu. O Centro Celso Furtado reúne a memória institucional; o acervo pessoal está no IEB-USP.






