O manuscrito quase desapareceu no correio entre Cambridge e o Brasil. Celso Furtado escreveu Formação econômica do Brasil no King's College, em 1957–1958, imaginando um afresco para leitores estrangeiros. O pacote extraviou-se. Sobrou o microfilme feito de última hora num equipamento precário; as quase trezentas páginas manuscritas foram datilografadas de novo, desta vez com cópia. O livro saiu em 1959 e, em vez de explicar o Brasil para fora, virou o mapa com o qual muita gente no país passou a ler a própria história econômica.
A edição da Companhia das Letras — 352 páginas, ISBN 978-85-359-0952-4 — é a porta de entrada mais estável para o texto. Não é um manual de fórmulas nem uma crônica de ciclos. É historiografia econômica feita por um economista da Cepal, misturando método histórico e análise de estrutura produtiva numa época em que isso ainda soava como novidade no Brasil.
O que o livro de fato faz
Furtado começa pela ocupação do território e compara a colônia portuguesa com as do hemisfério norte e das Antilhas. Em seguida percorre o açúcar, a pecuária, o ouro, a ascensão do café, a crise da cafeicultura no século XX e a industrialização. Em paralelo, acompanha a mão de obra: escravidão, trabalho assalariado, imigrantes europeus, migrantes internos. A conclusão aponta dois desafios que ele via para o fim do século XX e que o leitor de agora reconhece sem esforço: completar a industrialização e deter as disparidades regionais.
A chave analítica é cepalina. O Brasil aparece como periferia em relação a um centro europeu e norte-americano até o fim do ciclo do café, com dinamismo desproporcionalmente dependente das condições externas. Internamente, uma economia de subsistência de baixa produtividade convive com outra, exportadora e mais dinâmica. Inflação e desigualdade de renda não entram como acidentes: saem da própria forma de crescimento.
- Leitura longa da economia brasileira, do período colonial à industrialização.
- Método histórico-estrutural, não narração solta de “ciclos”.
- Ênfase em mão de obra, mercado interno e ocupação do território.
- Ponto de partida clássico para vestibular, graduação e debate de desenvolvimento.
Para quem este livro serve
Serve a estudante de economia, história, ciências sociais e direito que precisa de um recorte forte sobre a formação do Brasil, não de um resumo de datas. Serve a professor que quer um texto de referência, ainda adotado décadas depois da primeira edição. Serve a leitor geral disposto a um ensaio denso, escrito com clareza, sobre por que o país industrializou-se sem resolver o atraso interno.
Não serve a quem procura dicas de investimento, previsão de juros ou “como o Brasil vai crescer neste ano”. Furtado escreve sobre estruturas que se repetem, não sobre o noticiário. Também não substitui manuais contemporâneos de macroeconomia: o valor está na interpretação histórica.
Como o livro se encaixa na trajetória de Furtado
Antes de Cambridge, ele já tinha a tese de doutorado na Sorbonne sobre a economia colonial e a passagem pela Cepal. Formação econômica do Brasil condensa essa bagagem num único arco narrativo. Depois viriam a Sudene, o Ministério do Planejamento e o exílio; o livro, porém, ficou como a obra pela qual a maior parte das buscas ainda chega ao autor. Ricardo Bielschowsky, na Revista de Economia Política, registrou que, trinta anos após o lançamento, o volume seguia como o mais famoso da literatura econômica brasileira, com edições em vários idiomas.
A Companhia das Letras o coloca ao lado de outros títulos do autor no mesmo selo, mas este é o que mais conversa com Raízes do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo na prateleira de “interpretações do Brasil”: cada um com método próprio, todos tentando explicar o país a partir de uma estrutura, não de um episódio.
Edição, leitura e compra
A edição corrente da Companhia das Letras saiu em 12 de fevereiro de 2007, em brochura, 14 × 21 cm. Há e-book. O texto se apoia na tese de 1948 e no primeiro ensaio sobre a economia brasileira contemporânea, escrito no ano seguinte. Quem quiser o contexto autobiográfico do período de Cambridge encontra o relato na Obra autobiográfica; quem quiser o salto da história nacional para o continente vai para A economia latino-americana.
Na Amazon, o item corresponde à edição da Companhia das Letras. Vale conferir ISBN 9788535909524 para não cair em reimpressão antiga de outro selo. O livro continua sendo o primeiro volume a indicar para quem pergunta, sem rodeio, por onde começar Celso Furtado.





