Cem dias entre céu e mar é o livro que transforma uma travessia a remo em relato de bordo. Publicado em 1985, pouco mais de um ano depois da chegada à Praia da Espera, o texto não pede fé em super-herói: pede atenção ao plano, à fome, ao sextante e ao humor seco de quem remou sozinho da Namíbia à Bahia.
Em junho de 1984, Amyr Klink largou de Lüderitz num barco de menos de seis metros, o IAT, apelidado de “lâmpada flutuante”. Sem GPS, com rádio racionado e refeições desidratadas pensadas para a água do mar, cobriu cerca de 6.500 quilômetros em cem dias. O livro acompanha o desenho da embarcação, a burocracia africana, o rombo no casco no primeiro dia e os encontros com baleias, tubarões e gaivotas que viraram companhia.
A leitura funciona para quem busca literatura de viagem e para quem quer entender como um projeto impossível vira rotina. Klink descreve o medo de capotar, a conta da água doce, o cálculo do sextante e a alegria nada retórica de cumprir o plano ao jogar a âncora. A chegada na Praia da Espera, em Camaçari, não é apoteose: é o fim de um desenho que durou dois anos de preparação e cem dias de execução.
A Companhia das Letras relançou o clássico em nova edição revista, com projeto gráfico atualizado, 216 páginas e o texto que o público brasileiro já trata como livro de cabeceira da não ficção náutica. Continua sendo a porta de entrada da obra: curto o bastante para uma viagem de ônibus, denso o bastante para explicar por que o nome do navegador atravessou gerações. O filme 100 Dias, de Carlos Saldanha, parte exatamente desta história.
O IAT não era um iate nem um protótipo de recorde televisivo. Era um casco pensado para não capotar sem volta, para carregar comida de três meses e meio e para chegar num portinho, não numa rebentação. Klink insiste nisso: a travessia começou dois anos antes da largada, no desenho, na dieta sem sal e na autorização que a África do Sul relutava a dar depois de tentativas anteriores com mortos no mar. O livro guarda essa retaguarda. Sem ela, os cem dias viram lenda oca.
Para quem este livro faz sentido
- Quem quer o relato original da travessia a remo do Atlântico Sul.
- Leitores de não ficção brasileira e de diário de bordo.
- Quem estuda planejamento, risco e decisão de partir, sem discurso de vitrine.
Não é manual de remo nem guia turístico da Namíbia. É o documento de uma travessia específica, com data, barco e praia de chegada. Quem busca a circum-navegação polar deve seguir para Mar sem fim; quem quer o inverno no gelo, para Paratii: entre dois pólos.
O que o relato entrega — e o que não promete
O livro entrega o passo a passo público da expedição: comida, comunicação, orientação, fauna e o estado de espírito de um homem só no Atlântico. Não promete fórmula de sucesso nem “lições” numeradas. As frases que o público grifa — sobre paciência, razão e a certeza de que vale a pena viver — nascem da rota, não de um capítulo de encerramento corporativo.
A nova edição da Companhia das Letras é a via mais estável para quem quer o texto em português, revisado, com a capa atual. Vale para quem nunca leu Klink e para quem voltou ao livro depois do filme ou de uma palestra. O Atlântico de 1984 continua lá, cinzento e azul, esperando o leitor no primeiro remo.





