O barco tinha menos de seis metros. Não havia GPS. A água doce cabia em ração. Quando Amyr Klink deixou o porto de Lüderitz, na Namíbia, rumo ao Brasil, o que estava em jogo não era uma pose de aventureiro: era um plano que precisava sobreviver ao primeiro dia, ao primeiro rombo no casco e a cem jornadas de remo no Atlântico Sul.
Quatro décadas depois, o nome ainda é buscado por quem quer entender a travessia, os livros da Companhia das Letras e o jeito teimoso com que ele trata risco. Em 2026, o cinema brasileiro estreia 100 Dias, filme de Carlos Saldanha com Filipe Bragança no papel do navegador — e o público volta à mesma pergunta: quem é o homem que cruzou o oceano a remo e depois invernou na Antártica.
Quem é Amyr Klink
Amyr Khan Klink nasceu em São Paulo em 25 de setembro de 1955, filho do libanês Jamil Klink e da sueca Asa Frieberg Klink. É navegador, escritor e palestrante. A marca pública dele não é um recorde solto: é a combinação rara de expedição extrema, relato literário e conversa corporativa sobre planejamento.
Em 1984, tornou-se a primeira pessoa a cruzar o Atlântico Sul a remo, a bordo do IAT. Depois passou um inverno com o veleiro Paratii preso no gelo antártico, rumou ao Ártico, deu a volta ao continente gelado pela rota mais curta e difícil e repetiu a circum-navegação polar no Paratii 2. Os livros que saíram dessas viagens — sobretudo Cem dias entre céu e mar e Mar sem fim — transformaram o feito em leitura de geração em geração.
Quem chega hoje ao nome dele costuma querer três coisas ao mesmo tempo: a biografia do navegador, o caminho para os livros de viagem e o método que ele leva a palco quando fala de risco, equipe e partida. O perfil público cobre as três frentes, sem reduzir a pessoa a catálogo.
De São Paulo a Paraty: formação e o chamado do mar
A infância paulistana conviveu cedo com o litoral. A família frequentava Paraty, no Rio de Janeiro, e o mar deixou de ser paisagem para virar ofício. Estudou no Colégio São Luís, formou-se em Economia pela FEA-USP em 1978 e fez pós-graduação em Administração de Empresas na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Entre 1974 e 1980 foi remador do Clube Esperia.
Antes da travessia oceânica, o repertório já era de água: canoa entre Santos e Paraty, trechos de catamarã, navegação amazônica pelos rios Negro e Madeira e uma pesquisa de correntes entre Salvador, Fernando de Noronha e a Guiana Francesa. A formação em economia e administração não aparece como enfeite de currículo. Ela explica o modo como ele desenha barco, dieta, rádio, autorização e margem de erro antes de largar.
Paraty virou base afetiva e náutica. É dali que partem os veleiros com nome da cidade — grafados Paratii — e é ali que a família se enraíza. Casou-se em 1996 com a fotógrafa e velejadora Marina Bandeira Klink; as filhas Tamara, Laura e Marina Helena cresceram no mesmo recorte de mar e relato. Tamara Klink seguiria a navegação e a literatura por conta própria.
Como foi a travessia a remo do Atlântico Sul
Em junho de 1984, Amyr Klink partiu sozinho de Lüderitz. O IAT media 5,94 metros de comprimento e no máximo 1,52 metro de largura. A propulsão era o remo. A orientação, o sextante. A comunicação, rádio em dias e horas combinados. Não havia dessalinizador portátil nem telefonia satelital. Havia cerca de 150 refeições desidratadas, menos de três litros de água doce por dia e o medo concreto de capotar um casco que ele mesmo havia desenhado.
O começo foi feio. Na entrevista em que relembrou os 35 anos da viagem, ele conta que um veleiro de despedida tentou devolver um casaco esquecido, enroscou o remo e abriu um rombo no casco ainda na saída. A travessia, no entanto, durou cem dias. Em 18 de setembro de 1984 ele ancorou na Praia da Espera, em Camaçari, no litoral da Bahia — um portinho abrigado que escolheu de propósito, para não capotar na rebentação nem chegar debaixo de um petroleiro.
O percurso cobriu cerca de 6.500 quilômetros. No caminho houve tubarões, baleias, gaivotas, tempestade e o encontro com pescadores que perguntaram como tinha sido a pescaria. A resposta — “da África” — não cabia no mapa daquela praia. A chegada, no rádio, atrasou trinta segundos e revelou milhares de radioamadores escutando em silêncio para não gastar a bateria dele.
- Primeira travessia a remo do Atlântico Sul, em 1984, da Namíbia à Bahia.
- Invernagem solitária na Antártica a bordo do Paratii, com o barco preso no gelo.
- Circum-navegação polar em 88 dias, pela rota mais curta e tempestuosa do mapa.
- Livros de viagem publicados pela Companhia das Letras e palestras de planejamento no Brasil e no exterior.
Antártica, Ártico e os veleiros Paratii
A fama da travessia a remo poderia ter encerrado a história num único feito. Klink fez o contrário: usou o capital de atenção para construir barcos capazes de viver no gelo. Em dezembro de 1989 partiu de Paraty no Paratii rumo à Antártica. Ficou cerca de um ano na região; por sete meses o veleiro permaneceu preso no gelo da baía de Dorian. Em 1991 rumou ao Ártico, alcançou a ilha de Moffen e voltou a Paraty em outubro, depois de dezenas de milhares de quilômetros entre os dois pólos. O relato saiu em Paratii: entre dois pólos e no livro de fotografias As janelas do Paratii.
Entre 1998 e 1999 veio o projeto que ele trata como o grande desenho da carreira: dar a volta ao continente antártico sozinho, pela Convergência Antártica, a faixa de mar mais fria, curta e difícil do planeta. Partiu da Geórgia do Sul no Paratii, atravessou Atlântico, Índico e Pacífico e bateu de novo no ponto de partida após 88 dias e cerca de 14 mil milhas náuticas. Mar sem fim (2000) é o livro dessa circum-navegação. Cinco anos depois, já no Paratii 2 e com cinco homens a bordo, repetiu a volta em latitudes ainda mais altas — até 68º Sul — em 76 dias, de dezembro de 2003 a fevereiro de 2004. A expedição rendeu a série O Continente Gelado, da National Geographic, e o livro Linha-d'água.
O Paratii 2, “simples como canoa e cargueiro como navio”, virou personagem tanto quanto o comandante. Klink passou a ser procurado não só como o homem do remo, mas como quem sabe projetar um barco para o gelo, levar família ao mar e traduzir isso em palestra de planejamento.
Livros, palestras e o ofício de planejar
A literatura de Amyr Klink ocupa um recorte preciso da literatura brasileira de não ficção: o relato de viagens que não vende bravata, vende método. Cem dias entre céu e mar, lançado em 1985, continua sendo a porta de entrada. Mar sem fim leva o leitor à circum-navegação polar. Paratii: entre dois pólos cobre a invernagem e a travessia entre Antártica e Ártico. Linha-d'água olha o estaleiro, os homens do mar e o nascimento do Paratii 2. Em 2016, Não há tempo a perder, em depoimento a Isa Pessoa pela editora Tordesilhas, desloca o eixo da expedição para a escassez, o medo e a decisão de partir.
Paralelo aos livros, ele construiu uma carreira de palco. É diretor da Amyr Klink Planejamento e Pesquisa e da Amyr Klink Projetos Especiais. Há décadas ministra palestras sobre planejamento, risco, equipe e liderança, em português, inglês, francês e espanhol. O site oficial concentra biografia, livros e agenda; o Instagram e o canal no YouTube prolongam entrevistas, objetos e trechos de conversa. Também figura como sócio fundador do Museu Nacional do Mar, em São Francisco do Sul, Santa Catarina.
O ponto que separa Klink de um aventureiro de vitrine é o recado que ele mesmo repete: a alegria da chegada não veio de “superar limites”. Veio de cumprir o plano. Num barco finito, cada item compete com outro. Essa economia — de água, de sono, de fala no rádio — é o que ele leva para empresa, escola e plateia.
O que acompanhar na trajetória de Amyr Klink hoje
O presente público dele mistura livro vivo, palco e cinema. A Companhia das Letras relançou Cem dias entre céu e mar em nova edição revista, e o filme 100 Dias coloca a travessia de 1984 de volta no centro da conversa cultural. Quem quiser o relato na fonte ainda encontra os livros; quem quiser o homem em movimento encontra palestra, entrevista e o acervo do site amyrklink.com.br.
Há um cuidado útil para o leitor novo: não confundir o navegador com o personagem de autoajuda que o mercado às vezes tenta extrair dele. Klink fala de sonho, sim, mas o sonho dele tem estaleiro, sextante, autorização burocrática e data de partida. A melhor porta continua sendo o primeiro livro — e, a partir dele, a sequência polar que explica por que o nome atravessou 1984 e chegou a 2026 intacto.
Perguntas frequentes sobre Amyr Klink
Qual é o livro mais conhecido de Amyr Klink?
Cem dias entre céu e mar é a obra de estreia e o título mais procurado. Relata a travessia a remo de 1984. Quem quiser a circum-navegação polar deve seguir para Mar sem fim.
Amyr Klink ainda faz palestras?
Sim. Planejamento, risco, equipe e liderança continuam no centro da agenda pública, no Brasil e no exterior, a partir do site oficial e dos canais de contato da empresa.
O filme 100 Dias conta qual história?
A adaptação dirigida por Carlos Saldanha, com Filipe Bragança, parte da travessia a remo relatada em Cem dias entre céu e mar — a viagem da Namíbia à Bahia, em 1984.






