Linha-d'água começa no estaleiro, não na latitude. Publicado em 2006 pela Companhia das Letras, o livro de Amyr Klink trata da construção, do lançamento e da navegação do Paratii 2 — “um barco simples como canoa e cargueiro como navio” — e das pessoas que o tornaram possível. O subtítulo é honesto: entre estaleiros e homens do mar.
Depois da circum-navegação solitária de 1998–1999, Klink queria um veleiro capaz de passar anos no gelo e, ao mesmo tempo, levar crianças e a bagagem de uma família. O Paratii 2 nasceu dessa exigência contraditória. Entre dezembro de 2003 e fevereiro de 2004, já com cinco homens na tripulação, o barco repetiu a volta ao continente antártico em 76 dias, em latitudes mais altas do que a viagem anterior, alcançando 68º Sul e cerca de 13.300 milhas náuticas. A expedição rendeu a série O Continente Gelado, da National Geographic.
O texto, porém, não é só o diário dessa segunda volta. Klink volta às canoas de Paraty, às leituras de sótão, aos tipos de estaleiro, aos testes e às peças que só fazem sentido para quem já furou o dedo num barco. O homem é o porto. O Paratii 2 é o tema. A linha-d'água é a medida: o que fica abaixo dela, o que sobra acima, o que um projeto náutico realmente custa em tempo.
Lançado em novembro de 2006, o livro ocupa o lugar do ofício. Enquanto Mar sem fim narra a volta sozinha, Linha-d'água mostra o custo de repetir a ideia com gente a bordo e com um casco novo. Há tesouro, no sentido náutico: história enterrada de estaleiro, apetrecho, tipo humano. Quem lê para “aventura polar” encontra polar; quem lê para entender projeto encontra o estaleiro, que é o verdadeiro assunto.
Para quem este volume é o livro certo
- Quem já leu a travessia a remo e a circum-navegação solitária e quer o barco seguinte.
- Leitores interessados em projeto, estaleiro e ofício náutico, não só em recorde.
- Quem busca o Klink da tripulação, depois do Klink sozinho no leme.
Não substitui Mar sem fim nem Paratii: entre dois pólos. Completa o ciclo: do remo ao primeiro Paratii, da volta sozinha ao Paratii 2 com gente a bordo. É o livro mais “de chão de estaleiro” da prateleira, e por isso o mais útil para quem pergunta como se constrói um projeto que precisa durar anos no gelo.





