Mar sem fim é o relato da circum-navegação polar que Amyr Klink considera o grande desenho da carreira. Em 31 de outubro de 1998 ele deixou Marina e as filhas em Paraty, rumo à Convergência Antártica — a fronteira entre as águas frias do norte e as águas geladas do continente. O objetivo era simples de enunciar e brutal de executar: dar a volta ao mundo pela rota mais curta, rápida e difícil, sozinho no veleiro Paratii.
A partida formal se ancora na Geórgia do Sul. Dali o barco atravessa Atlântico, Índico e Pacífico até bater de novo no mesmo ponto. Foram 88 dias e cerca de 14 mil milhas náuticas de navegação contínua, com o sol de verão austral quase sem se esconder, gelo, vento, visibilidade ruim e uma rotina que não permitia mais do que cinco horas de sono fragmentado. O livro registra o quase choque com um iceberg, o réveillon dentro de uma tempestade e o deslumbramento com cachalote, miragem de ilha e fauna do mar gelado.
Publicado em 2000 pela Companhia das Letras, com 308 páginas, Mar sem fim traz cadernos com ilustrações da fauna, fotos, mapas da Antártica feitos por Sírio Cansado e desenhos do Paratii. É o volume para quem já conhece a travessia a remo e quer o Klink do gelo, não o Klink da “lâmpada flutuante”. A escrita permanece direta: pouco adjetivo, muita posição, muito vento, muita conta de sono.
Há um detalhe de calendário que o próprio livro destaca: a largada de Paraty cai no Dia das Bruxas. Não é metáfora. É a data em que o projeto saiu do papel depois de anos de desenho do casco polar. Daí até a Geórgia do Sul e daí até fechar o círculo, o leitor acompanha um homem só no leme, em águas onde o verão não apaga o risco de gelo. Quem busca “volta ao mundo” genérica se decepciona: o recorte é a faixa antártica, não os trópicos.
Por que ler depois de Cem dias entre céu e mar
Os dois livros conversam, mas não se repetem. O primeiro é um barco a remo no Atlântico subtropical. Este é um veleiro polar na faixa mais tempestuosa do planeta. O método é o mesmo — planejar até a margem do razoável e só então partir — mas a escala muda: família em terra, latitudes que castigam o casco, e a consciência de estar abrindo uma rota que, até então, ninguém havia cumprido daquela maneira.
- Circum-navegação da Antártica em 88 dias, 1998–1999.
- Relato solitário no Paratii, com mapas, fotos e desenhos do barco.
- Leitura para quem quer o Klink polar, depois da travessia a remo.
Quem busca a invernagem de 1989–1991 e a ida ao Ártico encontra esse arco em Paratii: entre dois pólos. Quem quer o nascimento do Paratii 2 e a volta com tripulação em 2003–2004 segue para Linha-d'água. Mar sem fim permanece o livro da volta sozinha, no leme, na rota mais curta do mapa.





