Diário da queda começa num ponto pequeno e vai inflando até caber três gerações, Auschwitz e a pergunta que o narrador não consegue largar: por que o mundo é deste jeito, e como um indivíduo se torna aquilo que é. Uma festa de treze anos, um colega que se machuca e, décadas depois, a certeza incômoda de que aquilo não foi acidente.
Publicado em 2011 pela Companhia das Letras, com apoio da Bolsa Funarte de Criação Literária, o quinto romance de Michel Laub foi o primeiro em que ele enfrentou de frente a origem judaica da família. Não é um livro de denúncia histórica nem um manual sobre o Holocausto. O próprio autor descreveu a obra, em entrevista, como um texto sobre a dificuldade de escrever sobre Auschwitz — e, ao mesmo tempo, sobre adolescência, casamento em crise, mudança de cidade e a relação difícil com o pai.
O que a história põe em jogo
O narrador, sem nome, tem cerca de trinta anos e se descreve esvaziado de sentimentos e memória. Em paralelo, o avô — sobrevivente de Auschwitz que chegou ao Brasil num daqueles navios apinhados e passou anos preenchendo cadernos secretos, bizarros, quase uma enciclopédia privada — vai se perdendo no Alzheimer. Entre o neto e o avô há um segredo familiar que remonta ao campo. Entre o narrador e o pai, uma relação fria. Entre o narrador e a própria juventude, a queda de um colega numa festa, um gesto que se revela mais do que acidente e cujas consequências atravessam a vida adulta.
A forma acompanha esse material. Os capítulos são curtos, numerados, encadeados como itens de uma lista: “algumas coisas que sei sobre o meu avô”, fatos, cheiros, gostos, sons. A prosa oscila entre violência, lirismo e uma ironia seca, com trechos de neutralidade quase documental. Quem espera uma narrativa linear de sobrevivência se frustra; quem aceita o fragmento encontra um romance de 152 páginas que cabe numa sentada e não se esgota nela.
Para quem este livro faz sentido
Diário da queda interessa a quem lê literatura contemporânea brasileira, ficção de memória e romances que tratam identidade judaica sem transformar a Shoah em cenário de costume. Também chegou a bancas de vestibular: tornou-se leitura obrigatória da UFRGS. No exterior, a tradução inglesa de Margaret Jull Costa, Diary of the Fall, publicada pela Other Press, ganhou o Jewish Quarterly-Wingate Prize em 2015 e figurou na lista do International Dublin Literary Award em 2016.
No Brasil, um júri de cem especialistas reunido pela Folha de S.Paulo colocou o romance entre os 25 melhores livros brasileiros de literatura do século 21. Recebeu o Prêmio Brasília de Literatura na categoria romance, o Bravo/Bradesco de melhor romance, e foi finalista do Portugal Telecom, do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura. Esses prêmios não substituem a leitura; servem para localizar o livro no mapa: é o título que tornou Michel Laub um nome reconhecido fora do circuito estreito de estreias.
- Edição original: Companhia das Letras, 2011, 152 páginas, ISBN 978-85-359-1817-5.
- Tradução inglesa: Diary of the Fall, Margaret Jull Costa.
- Público: leitor adulto de romance contemporâneo, memória familiar e ficção judaica brasileira.
- Não é: romance histórico de campo de concentração nem biografia disfarçada com nomes trocados.
Como ler sem reduzir o livro a um único tema
Há quem abra Diário da queda atrás de um testemunho do Holocausto e encontre, no lugar, um narrador obcecado com a própria mesquinhez. A queda da festa, o bullying, o casamento que se desfaz e os cadernos do avô pesam juntos. A herança de Auschwitz está lá, mas filtrada pelo silêncio de quem sobreviveu e pela dificuldade do neto de herdar uma tragédia que não viveu. Esse descompasso é o assunto, não o enfeite.
Quem já leu os romances anteriores de Laub reconhece o método: primeira pessoa, tempo quebrado, um fato do passado que reorganiza o presente. A diferença é a escala pública do trauma. Depois deste livro vieram A maçã envenenada e O tribunal da quinta-feira, que a crítica costuma ler como continuação do mesmo problema sob outras catástrofes. Dá para começar por aqui sem ter lido os quatro romances anteriores; o contrário também vale, mas este é o título que o mercado internacional escolheu como porta de entrada.
A edição em português segue no catálogo da Companhia das Letras. Trecho, ficha e reimpressão aparecem na página da editora; a compra em livraria ou na Amazon leva ao item em brochura ou e-book, sem misturar capa dura, box ou edição especial como se fossem obras distintas. É um romance só. E é o romance pelo qual a maior parte dos leitores ainda chega a Michel Laub.





