Solução de dois Estados começa num set de documentário e se recusa a entregar conciliação barata. Uma cineasta alemã marcada por um trauma prepara um filme sobre a violência brasileira. Os entrevistados principais são dois irmãos: Raquel, artista de cento e trinta quilos cujo trabalho parte de episódios que a levaram a detestar o próprio corpo, e Alexandre, empresário do ramo fitness na periferia de São Paulo. O gancho mundial da escolha deles é uma agressão que Raquel sofreu no início de 2018, durante um debate sobre arte e política num hotel da capital.
O oitavo romance de Michel Laub saiu em 9 de outubro de 2020 pela Companhia das Letras, com 248 páginas. A editora descreveu o livro como um romance sobre ódio, perdão e os modos como a intimidade é definida pela política e pela barbárie do tempo. A pergunta que fecha a apresentação oficial vale como bússola de leitura: a ideia de conciliação é inimiga ou aliada da barbárie em que o país se meteu?
Dois irmãos, um documentário, o Brasil de 2018
Diante das câmeras, os segredos da história íntima — bullying de adolescência, disputa por herança, visões opostas sobre sexo, religião e responsabilidade individual — se misturam a flashes da história recente: o Plano Collor, que inicia a ruína da família, até as vésperas de uma eleição que mobilizou o ódio de uma sociedade dividida. Laub não escreve um romance-reportagem sobre o noticiário. Escreve a vida de duas pessoas cuja briga particular vira matéria de documentário estrangeiro, e cujo corpo, classe e linguagem não cabem no enquadramento fácil de “os dois lados”.
Raquel e Alexandre não são porta-vozes. Ela é artista; ele, empresário de academia na periferia. O documentário quer violência brasileira; eles entregam também gordura, masculinidade, dinheiro, rancor de irmão e o resto que uma cineasta alemã talvez não soubesse pedir. O título empresta a fórmula diplomática do conflito israelense-palestino e a desloca para o interior de uma família brasileira. A analogia é provocação, não tese de relações internacionais.
Depois de Diário da queda, o ódio contemporâneo
Com este livro, Laub sai do arquivo do Holocausto herdado e entra no Brasil do fim da década de 2010. A crítica de revistas literárias registrou a continuidade: livro a livro, uma obra consistente, agora com o ódio político no centro da intimidade. Quem leu O tribunal da quinta-feira reconhece o gosto pelo julgamento público; quem leu Diário da queda reconhece a família como campo de batalha. A diferença é o palco: 2018, hotel, debate, câmera, eleição.
O romance permanece no catálogo da Companhia das Letras, com capa de Raul Loureiro. Há trecho em PDF no site da editora e edições em brochura e e-book. Não é necessário ter lido os romances anteriores, embora o leitor habitual de Laub identifique o método: fragmentos, contrapondo, recusa de redentor. A leitura pede atenção a quem fala em cada bloco — o documentário multiplica as vozes, e o livro usa isso para não entregar um narrador único dono da verdade.
- Edição: Companhia das Letras, lançamento em 9 de outubro de 2020, 248 páginas, ISBN 978-85-359-3379-6.
- Capa: Raul Loureiro.
- Público: leitor de romance político contemporâneo, ficção brasileira pós-2018 e quem já conhece Laub pela memória familiar.
- Não confundir: o título não é ensaio de geopolítica; é romance de intimidade e ódio doméstico com pano de fundo nacional.
Por que comprar este e não outro Laub
Compre Solução de dois Estados se a pergunta for sobre o Brasil recente: como uma agressão num debate vira espetáculo, como dois irmãos sustentam visões irreconciliáveis e o que sobra de perdão quando a política já entrou na sala. Se a pergunta for sobre Auschwitz, cadernos do avô e a queda da adolescência, o livro certo continua sendo Diário da queda. Se for sobre futebol e família em Porto Alegre, O segundo tempo. Este volume é o da divisão — da família, do país, do corpo de Raquel, do negócio de Alexandre.
A Companhia das Letras mantém a obra à venda no site, em livrarias e na Amazon. A edição a procurar é o romance de 2020, em português, selo Companhia das Letras. Não há motivo editorial para tratar e-book e brochura como projetos diferentes: é o mesmo texto. Para o leitor que quer o Michel Laub do tempo presente, antes de Passeio com o gigante, este é o romance em que a política deixa de ser ruído de fundo e vira o ar que os personagens respiram.





