O tribunal da quinta-feira não se passa num fórum: o julgamento é a reputação pública, a rede, a quinta-feira em que o privado vaza. Um publicitário escreve e-mails ao melhor amigo. Os textos falam de sexo, amor, casamento e traição com piadas ofensivas, o tipo de recado que só existe porque o destinatário é íntimo. A ex-mulher copia as mensagens e as distribui. Aí começa o escândalo.
O tribunal da quinta-feira saiu em 2016 pela Companhia das Letras, com 184 páginas. É o romance em que Michel Laub leva a prosa de memória para o presente digital e, ao mesmo tempo, para os reflexos tardios da epidemia de aids. O narrador se chama José Victor; o amigo, Walter, é soropositivo. O fio que une os dois, diante do linchamento, é o que ainda incomoda falar sobre HIV, homofobia, assédio, empatia e o limite do que se entende por tolerância.
E-mail, aids e o julgamento que não precisa de juiz
A editora apresentou o livro como o romance “explosivo” do autor de Diário da queda. O adjetivo, neste caso, descreve o dispositivo: a intimidade vazada, o vocabulário que o narrador usa quando acha que ninguém mais vai ler, a velocidade com que um círculo privado vira espetáculo. Laub não escreve um tratado sobre redes sociais. Escreve a história de um homem cuja linguagem ofensiva — até então protegida pela amizade — vira prova contra ele.
O HIV não entra como tema de campanha. Entra como fato do corpo do amigo e como memória de uma epidemia que o Brasil e o Ocidente fingiram ter arquivado. A crítica acadêmica leu o romance na chave do contágio: o vírus, o texto, o escândalo. Outra leitura, frequente na imprensa da época, enfatiza o linchamento moral e a frase que o próprio Laub ecoou em entrevista: todo linchador age em nome de princípios nobres. O narrador é vítima de massacre virtual e, ao mesmo tempo, autor das mensagens que o massacre usa. O livro recusa o lugar confortável de inocente.
Lugar na trilogia e no catálogo
Junto com Diário da queda (2011) e A maçã envenenada (2013), a crítica costuma tratar O tribunal da quinta-feira como fechamento de uma trilogia dos efeitos individuais de catástrofes históricas. No primeiro, Auschwitz herdado. No segundo, a morte de Kurt Cobain como marca geracional. Neste, a aids e o tribunal da opinião. Os três compartilham primeira pessoa, tempo quebrado e um narrador que tenta explicar a si mesmo depois de um dano irreversível. Não é necessário ler os dois anteriores para entrar neste; quem lê os três vê o método se deslocar do arquivo familiar para o arquivo da internet.
O romance foi finalista de prêmios como Jabuti, São Paulo de Literatura e APCA. Continua no catálogo da Companhia das Letras, em brochura e e-book. A capa laranja, com o subtítulo “do autor de Diário da queda”, já indica a porta comercial: quem chegou pelo livro de 2011 encontra aqui o mesmo autor num problema contemporâneo, sem repetir avô, campo nem caderno.
- Edição: Companhia das Letras, 2016, 184 páginas, ISBN 978-85-359-2832-7.
- Dispositivo: e-mails íntimos vazados; julgamento público sem tribunal formal.
- Temas verificáveis no texto: HIV/aids, amizade, traição, homofobia, reputação.
- Público: leitor adulto; o vocabulário das mensagens é ofensivo de propósito, e o livro avisa isso na apresentação da editora.
Vale a pena começar por aqui?
Só se a pergunta do leitor for sobre o presente: como uma intimidade escrita vira arma, o que resta de uma amizade quando o privado vaza, e de que modo uma epidemia dos anos 1980 ainda organiza o medo e o preconceito. Se a pergunta for “qual é o livro mais famoso de Michel Laub?”, a resposta continua sendo Diário da queda. O tribunal da quinta-feira é o título para quem já sabe o nome do autor e quer o romance em que a memória deixa de ser só familiar e vira arquivo digital.
Não há preço estável a cravar no texto: a Companhia das Letras mantém a edição em circulação, com compra em livraria, site da editora e Amazon. O item certo é este romance, não uma coletânea nem uma edição especial. Quem busca a prosa de Laub no ponto em que ela encara a internet, o HIV e o gosto contemporâneo pelo linchamento encontra neste volume o recorte mais direto.





