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Michel Laub

Nascimento: 1973 São Paulo, SP
Escritor e jornalista de Porto Alegre, autor de Diário da queda e de romances da Companhia das Letras publicados em doze idiomas.

Quem chega a Michel Laub por Diário da queda costuma imaginar que a origem judaica sempre ocupou o centro da prosa. Não ocupou. O romance que cruzou o avô sobrevivente de Auschwitz, cadernos secretos e uma queda numa festa de aniversário só apareceu no quinto livro, quando o autor já passava dos trinta e poucos e tinha atravessado redação, instituto cultural e quatro romances que falavam de culpa sem nomear o Holocausto.

Michel Laub nasceu em Porto Alegre em 1973, formou-se em Direito na UFRGS, tentou a advocacia por poucos meses e mudou-se para São Paulo em 1997. Escritor e jornalista, publicou os romances pela Companhia das Letras, entrou na lista da Granta de jovens narradores brasileiros e hoje vive em São Paulo, onde segue como colunista do Valor Econômico. A pergunta que o leitor traz — quem é esse autor, o que ele escreveu de fato e por onde começar — cabe numa trajetória concreta, não num rótulo frouxo de literatura de memória.

Quem é Michel Laub e por que a prosa dele interessa agora

Laub é romancista, contista e jornalista. Filho do engenheiro Werner Heinz Feliz Laub e da professora Claudia Judite Laub, fez o ensino fundamental e médio no Colégio Israelita Brasileiro, em Porto Alegre. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1991 e formou-se em 1996. Matriculou-se em Jornalismo na PUCRS, curso que não concluiu. A advocacia em Porto Alegre durou alguns meses de 1997; no mesmo ano ele foi para São Paulo trabalhar na revista Bravo!, da qual chegou a ser diretor de redação até 2005.

Antes da Bravo!, escreveu sobre negócios e política para CartaCapital e República. Entre 2005 e 2010 passou pelo Instituto Moreira Salles, primeiro como coordenador de publicações e cursos, depois como editor do site. Desde então dedica-se sobretudo à literatura, dá cursos de criação literária e colabora com periódicos e editoras. Em entrevistas, descreve o próprio método sem mistério: não se vê como escritor de imaginação pura; o que o interessa são os sentimentos que certas histórias carregam, quase sempre narrados em primeira pessoa, com referências autobiográficas e linguagem dirigida a leitor adulto.

De Porto Alegre ao jornalismo em São Paulo

A mudança de 1997 explica boa parte da autoridade pública de Laub. Ele não chegou a São Paulo como romancista consagrado: chegou como jornalista cultural, ocupou a redação de uma revista de artes e, em paralelo, estreou em livro. A coletânea de contos Não depois do que aconteceu saiu em 1998. O primeiro romance, Música anterior (2001), recebeu o Prêmio Érico Veríssimo da União Brasileira de Escritores na categoria revelação. Uma bolsa da Fundação Vitae, em 2005, sustentou a escrita de O segundo tempo. A Funarte apoiou Diário da queda; depois vieram bolsa da Petrobras e uma sequência de indicações a prêmios nacionais.

Como colunista, passou pela Folha de S.Paulo e pelo Globo e hoje escreve no Valor Econômico. Essa passagem de redação importa porque a prosa ficcional herda o hábito de documentar cheiro, gosto, som e fato com uma neutralidade quase de reportagem — e, no mesmo movimento, recusa a ficha fácil de “autor do Holocausto” ou “autor gaúcho de futebol”.

  • Formação: Direito na UFRGS (1996); Jornalismo na PUCRS, interrompido; advocacia breve em Porto Alegre.
  • Imprensa: CartaCapital, República, direção de redação na Bravo!, colunas na Folha, no Globo e no Valor.
  • Instituição: coordenação de publicações e cursos e edição de site no Instituto Moreira Salles.
  • Editora: romances pela Companhia das Letras, com circulação em doze idiomas.

Como a ficção se organiza: culpa, fragmento e primeira pessoa

A Enciclopédia Itaú Cultural aponta um núcleo que já está no título de estreia: narradores que voltam a um acontecimento do passado para entender como um fato determina uma vida. Em Música anterior, um juiz relê as relações afetivas à luz de um processo. Em Longe da água (2004), dois eventos distantes se ligam sob os olhos de um narrador angustiado. O segundo tempo (2006) amarra um Gre-Nal no Beira-Rio, em 12 de fevereiro de 1989, à desintegração de uma família. O gato diz adeus (2009) troca a primeira pessoa única por quatro vozes em torno de um triângulo amoroso.

A virada pública veio em 2011. Diário da queda é o primeiro romance em que Laub enfrenta de frente a origem judaica, a partir dos diários do avô, sobrevivente de Auschwitz. Não é um livro “sobre o campo”: o próprio autor descreveu a obra como um texto sobre a dificuldade de escrever sobre Auschwitz, entre outras coisas. Um júri de cem especialistas reunido pela Folha de S.Paulo colocou o romance entre os 25 melhores livros brasileiros de literatura do século 21. Na Inglaterra, a tradução de Margaret Jull Costa, Diary of the Fall, ganhou o Jewish Quarterly-Wingate Prize em 2015 e entrou na lista do International Dublin Literary Award no ano seguinte.

Os livros seguintes não repetem o mesmo recorte. A maçã envenenada (2013) e O tribunal da quinta-feira (2016) fecham, na leitura crítica, uma linha dos efeitos individuais de catástrofes históricas — o Holocausto, a morte de Kurt Cobain vista por uma geração, a epidemia de aids e o linchamento digital. Solução de dois Estados (2020) e Passeio com o gigante (2024) deslocam o palco para o ódio político contemporâneo, a divisão da comunidade judaica e o Brasil depois de 2018. Em 2026 saiu o primeiro livro de não ficção, o ensaio Verão na névoa.

Prêmios, traduções e por onde começar a ler

Além do Érico Veríssimo de revelação, Laub recebeu o Bravo/Prime, o Prêmio Brasília de Literatura na Bienal de Brasília (2012) por Diário da queda, o Transfuge na França (2014), o JQ-Wingate (2015) e o segundo lugar no Jabuti de 2014. Foi finalista de Portugal Telecom/Oceanos, Zaffari & Bourbon, Jabuti, São Paulo de Literatura, APCA, Correntes d’Escritas e Dublin Literary Award. A lista importa menos como medalheiro e mais como mapa: o reconhecimento internacional se concentra em Diário da queda, enquanto o restante da obra circula no Brasil pela Companhia das Letras, com presença estável em livrarias e no perfil de autor da Amazon.

Quem busca um primeiro livro tem três portas honestas. Quem quer o texto que tornou o nome conhecido no exterior começa por Diário da queda. Quem prefere a fase gaúcha, o futebol e a família, encontra em O segundo tempo um romance curto e concreto, depois transformado em episódio da série documental Viagem de Bolso, da Mira Filmes. Quem quer o Laub que encara o presente político vai a Solução de dois Estados ou a Passeio com o gigante. Os romances não são variações de formato: cada um muda o problema moral que o narrador precisa resolver.

Para leitores de literatura contemporânea brasileira, Laub ocupa um lugar específico: prosa de memória que desconfia da memória, ficção em primeira pessoa que não entrega a confissão prometida, jornalista que trata o detalhe como prova e o silêncio familiar como matéria. Há parentesco com outros autores de memória pública, mas o recorte dele é outro — menos testemunho de Estado, mais herança privada que vaza para a história.

Onde acompanhar Michel Laub

O blog michellaub.wordpress.com concentra biografia, contato e textos. No Instagram, o perfil é @michellaub; no X, o mesmo nome. A página de autor na Companhia das Letras reúne a bibliografia em circulação. Não há canal oficial de YouTube; as entrevistas públicas — como a participação no programa Provoca — circulam em veículos de terceiros. Para comprar os livros, o caminho mais direto é a edição em português da Companhia das Letras, disponível em livrarias e no perfil de autor da Amazon.

Quem procura método, canal de receitas de escrita ou um porta-voz pronto para o debate do dia vai se frustrar. O que Laub deixou público é mais seco: romances pela Companhia das Letras ao longo de mais de duas décadas, colunas de jornal e a teimosia de perguntar, livro a livro, como uma pessoa se torna o que é — no Direito abandonado, na redação, no estádio, nos cadernos do avô e no Brasil que os romances recentes recusam conciliar por decreto.

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Projetos de Michel Laub

Diário da queda
Diário da queda
Romance de 2011 em que três gerações de uma família judaica se cruzam a partir de uma queda na adolescência e dos cadernos de um avô sobrevivente de Auschwitz.
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O segundo tempo
O segundo tempo
Romance de 2006 que entrelaça o Gre-Nal do século, em 1989 no Beira-Rio, com o dilema de um garoto de quinze anos diante da desintegração da família.
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O tribunal da quinta-feira
O tribunal da quinta-feira
Romance de 2016 sobre e-mails ofensivos, um escândalo público e os reflexos tardios da epidemia de aids num julgamento de reputação.
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Solução de dois Estados
Solução de dois Estados
Romance de 2020 sobre ódio, perdão e dois irmãos entrevistados para um documentário que mistura intimidade, política e a violência brasileira.
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Passeio com o gigante
Passeio com o gigante
Romance de 2024 em que um advogado sionista sobe ao palco e, anos depois, revê o discurso num hospital onde fantasia e realidade se misturam.
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