Passeio com o gigante coloca o leitor no centro de um discurso que, ao mesmo tempo, repele e seduz. Davi Rieseman, advogado ligado à causa sionista, sobe a um palco. Mistura intolerância e generosidade, fala da relação com o sogro, a mãe, a esposa e a filha, e atravessa o noticiário: uma eleição no Brasil, a ascensão evangélica, o antissemitismo, o Oriente Médio. Anos depois, num hospital onde fantasia e realidade se misturam, um coro de vozes o obriga a reviver o trauma por trás daquela fala.
Nono romance do autor, publicado em 26 de março de 2024 pela Companhia das Letras, o livro tem 160 páginas e capa de Raul Loureiro. A editora o apresentou como um romance sobre a divisão da comunidade judaica em meio ao extremismo político no Brasil e no mundo. Benjamin Moser, autor de biografias de Clarice Lispector e Susan Sontag, descreveu Davi como um anti-herói que vende a alma em troca de um gostinho de poder. Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, viu no personagem um espelho: ideólogo sionista e financiador da extrema-direita no Brasil, ele reflete mecanismos de adesão e repulsa sem deixar a imagem se fixar.
Discurso, hospital e o coro que não deixa o narrador sozinho
A forma é teatral. A crítica do jornal Rascunho comparou a leitura à experiência de um espetáculo do Teatro da Vertigem: o palco, o discurso, depois o hospital, o coro, os fragmentos do passado iluminando a ação presente. Davi não é um porta-voz simpático. O romance constrói o choque de visões em vozes, tempos e tons diferentes — judeus seculares e religiosos, progressistas e conservadores, a cultura diaspórica da dúvida e as convicções militaristas da política israelense.
Há um desfecho que a editora descreve como caminho tortuoso, feito também de esperança, “entre palavras de choro ou riso”, num mundo em que culpados e inocentes terão de viver o acerto de contas com a história. O livro não promete reconciliação. Promete o incômodo de acompanhar um narrador cujas certezas políticas estão sujas de intimidade, e cuja intimidade está suja de política.
Continuidade com Solução de dois Estados
Quem leu Solução de dois Estados reconhece o território: ódio contemporâneo, comunidade judaica, Brasil dividido, recusa de conciliação automática. A diferença está no dispositivo. Lá, o documentário e os dois irmãos. Aqui, um único orador e o coro que o desmonta. Laub, segundo a crítica de Dalcastagnè, amplia o efeito de transformar discursos odiosos em personagem complexa. O leitor não assiste de fora: o livro manipula certeza e emoção até que a adesão e a repulsa se misturem.
O contexto de lançamento inclui a pandemia como cicatriz. Em entrevistas de 2024, Laub falou das marcas desse período e recusou a linguagem fácil do perdão geral. O romance transita por um cenário que a editora chama de pós-pandemia, em que a memória dos mortos deu lugar ao pragmatismo cínico e às guerras. Não é um “livro da covid”; é um romance de discurso político depois que o luto coletivo esfriou.
- Edição: Companhia das Letras, 26 de março de 2024, 160 páginas, ISBN 978-85-359-3696-4.
- Capa: Raul Loureiro.
- Personagem central: Davi Rieseman, advogado, discurso sionista, família e palco.
- Público: leitor adulto de ficção política contemporânea, literatura judaica brasileira e quem já acompanhou Laub em Solução de dois Estados.
Por onde entra o leitor novo
Não é o melhor primeiro livro de Michel Laub. O primeiro livro, para a maior parte das pessoas, continua sendo Diário da queda. Passeio com o gigante é o título de quem quer o autor no presente: comunidade judaica rachada, extrema-direita, palco, hospital, ironia. A densidade é alta para um volume curto. A forma teatral pede leitura atenta às mudanças de voz; quem folheia atrás de um enredo policial se perde.
A edição em português está no catálogo da Companhia das Letras, com trecho em PDF no site da editora, brochura e e-book. A Amazon e as livrarias levam ao mesmo romance — não a uma edição especial nem a uma tradução. Para o leitor que acompanha a ficção brasileira depois de 2018 e quer o Laub mais recente em romance, antes do ensaio Verão na névoa, este é o volume em que o discurso público e a culpa privada deixam de ter cômodos separados.





