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O segundo tempo

Livro
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Romance de 2006 que entrelaça o Gre-Nal do século, em 1989 no Beira-Rio, com o dilema de um garoto de quinze anos diante da desintegração da família.

O segundo tempo usa o futebol como relógio. O assunto, desde a primeira página, é outro. No dia 12 de fevereiro de 1989, Grêmio e Internacional jogaram no Beira-Rio o confronto que o Rio Grande do Sul batizou de Gre-Nal do século. Na arquibancada, um garoto de quinze anos divide a atenção entre o gramado e o irmão caçula ao lado — e entre o jogo e a notícia que vai desmontar a família.

Publicado em 2006 pela Companhia das Letras, com origem numa bolsa da Fundação Vitae, o terceiro romance de Michel Laub tem 120 páginas e uma estrutura quase de crônica de partida: os minutos do segundo tempo organizam a memória de um narrador que, adulto, relê aquele domingo como o dia em que deixou de ser criança. Não é livro de torcedor. É livro de quem descobriu, no meio de um clássico, que ia ter de cuidar do irmão mais novo enquanto o casamento dos pais ruía.

Futebol, família e o minuto em que a infância acaba

O protagonista guarda segredos que envolvem o pai, a mãe e a desintegração iminente da casa. Há tentativa de suicídio da mãe na memória, depressão, infidelidade, uma gravidez fora do casamento, a obrigação de proteger o caçula. Na arquibancada, cada lance — o pique de um centroavante, o giro de um ponteiro, a reação da torcida — ganha ressonância nesse dilema. Quando o placar vira e a esperança de virada some, some também a fantasia de que o jogo ainda pode adiar a conversa.

Laub descreve uma partida real com os instrumentos inconfiáveis da memória. A sequência dos gols e dos minutos existe; o que o romance inventa é a correspondência entre campo e afeto. A Enciclopédia Itaú Cultural nota o mesmo procedimento de sempre na ficção dele: um detalhe do lance sintetiza a posição do narrador diante da vida, ainda que o próprio narrador não se dê conta da projeção. Quem lê atrás de “o livro do Gre-Nal” encontra, no lugar, um romance de formação comprimido numa tarde de estádio.

Onde este romance se encaixa na obra

O segundo tempo veio depois de Música anterior e Longe da água, ainda na fase em que Laub não havia escrito sobre judaísmo nem Holocausto. A crítica universitária costuma ler o livro como peça de uma prosa de trauma familiar: o narrador de onze a quinze anos convive com a ruína do casamento, vira cúmplice do pai e opta por não abandonar o irmão. O clássico gaúcho funciona como data de corte. O próprio narrador lembra o minuto 71 como a última vez em que um gol teve significado para ele.

O romance foi finalista de prêmios como Portugal Telecom e Zaffari & Bourbon, e depois ganhou uma vida fora da página: virou um dos episódios da série documental Viagem de Bolso, da Mira Filmes. Para o leitor que chega a Laub por Diário da queda, este título mostra o autor antes da virada judaica — a mesma primeira pessoa, o mesmo tempo fragmentado, um material mais local, mais gaúcho, mais de estádio e de casa.

  • Edição: Companhia das Letras, 2006, 120 páginas, ISBN 978-85-359-0924-1.
  • Âncora factual: Gre-Nal de 12 de fevereiro de 1989, estádio Beira-Rio, Porto Alegre.
  • Público: leitor de romance curto, memória familiar e quem quer o Laub anterior a Diário da queda.
  • Fora do livro: episódio da série Viagem de Bolso (Mira Filmes).

Como e por que ler agora

O volume é breve. Dá para ler numa viagem. A densidade está no recorte: quinze anos, um irmão, um jogo, uma família que se desfaz no intervalo. Não há subplot de redenção esportiva nem discurso sobre rivalidade colorada e gremista. O futebol está lá como linguagem que o narrador ainda entende; o segundo tempo, como metáfora que o título não esconde e que o texto, apesar disso, recusa transformar em slogan.

Quem não conhece o Gre-Nal não fica de fora. As descrições de lance bastam para acompanhar o relógio da partida. Quem conhece o clássico ganha uma camada extra de reconhecimento, mas o livro não depende dela. A edição em português permanece no catálogo da Companhia das Letras, em brochura e e-book. Vale a edição original do romance, não uma variação de capa ou formato. Para entender Michel Laub além do título internacional, O segundo tempo é o atalho mais concreto: Porto Alegre, um estádio, um garoto que vira adulto no minuto errado.

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