Fé no Inferno junta duas épocas que não costumam caber no mesmo romance brasileiro: 1915, no genocídio armênio, e 2017, num apartamento dos Jardins, em São Paulo, às vésperas de uma eleição. Quem une os tempos é Cláudio, cuidador de idosos, homossexual e neto de indígenas, contratado para acompanhar Domingos, um senhor armênio. A suspeita que move a trama é concreta. Cláudio lê um livro de memórias e passa a achar que pode estar diante de um dos últimos sobreviventes daquele massacre. A tarefa de cuidador vira, então, a de mantê-lo vivo.
A Companhia das Letras lançou o livro em 25 de setembro de 2020, com 376 páginas, formato 14 por 21 centímetros e ISBN 978-85-359-3389-5. A capa é de Guilherme Xavier. Não é um ensaio histórico nem um romance de tese com resposta pronta. A editora descreve o cruzamento de classe, etnia, gênero e orientação sexual, e o próprio Nazarian depois disse ao Globo que escreveu num momento em que lhe parecia preciso “levantar bandeiras de forma mais clara”.
O que a história pede do leitor
O miolo não explica o genocídio armênio como verbete. Usa a convivência de dois homens num bairro rico de São Paulo para fazer a violência de 1915 entrar na rotina de quem troca fralda, remédio e conversa. Cláudio já sabe o que é ser minoria na cidade em que trabalha. Domingos carrega uma história que a maior parte dos brasileiros não estudou na escola. O livro aposta que uma coisa ilumina a outra sem que as duas se tornem a mesma.
Nazarian contou, em texto público, que a figura do velho armênio nos Jardins parte em boa medida da memória dos avós. Isso não transforma o romance em autobiografia. Cláudio não é o autor. É um personagem com passagem pela polícia, passado traumático e um emprego precário de cuidado. O dado familiar serve para entender de onde veio a obsessão do tema, não para ler o livro como diário.
O lugar do livro na carreira
Antes deste romance, a Companhia já tinha publicado Neve Negra, terror doméstico de 2017. Fé no Inferno é mais longo, mais histórico e mais explícito no recorte político. O autor disse que levou cerca de cinco anos para escrevê-lo. Saiu no começo da pandemia, sem a noite de autógrafos habitual, e ele mesmo falou depois na sensação de circulação pequena para o tamanho do esforço.
Em 2021 o livro entrou na lista de finalistas do Prêmio Jabuti e do Prêmio Oceanos. No Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, ficou em segundo lugar. O Globo noticiou os vencedores em 12 de novembro de 2021. Vale repetir o que esses resultados não são: não houve vitória no Jabuti. Houve final e um segundo lugar numa premiação da Biblioteca Nacional. A editora usa essa tríade na apresentação do autor, e é por ela que muita gente chega ao título.
Para quem faz sentido
O livro interessa a quem procura ficção brasileira contemporânea com política dentro da cena, não em discurso separado. Também interessa a quem busca o genocídio armênio narrado a partir do Brasil, e não só a partir da historiografia europeia. Não é porta de entrada leve. São quase quatrocentas páginas, com duas linhas de tempo e um vocabulário de cuidado, fé e violência.
Quem quiser o Nazarian mais curto e mais debochado encontra isso em Veado Assassino, de 2023, escrito em parte como reação à sensação de que Fé no Inferno tinha sido grande demais para o momento em que saiu. Os dois livros conversam. Um cava memória histórica. O outro monta um crime político só com falas. Nenhum substitui o outro.
A edição à venda na Amazon e na Companhia das Letras é esta brochura de 2020. Não há, no registro público estável, um box ou uma edição comentada que mude o texto. O caminho é o volume único.





