Veado Assassino cabe numa sentada e recusa narração tradicional. Um presidente de extrema-direita é morto por um adolescente não binário. O livro inteiro é a entrevista em que esse jovem, Renato, responde a um interlocutor que quase não se mostra. Não há descrição de cenário fora do que a fala deixa escapar. Quem lê precisa montar o que aconteceu a partir do que Renato escolhe contar, e do que ele distorce.
A Companhia das Letras publicou a novela em 27 de julho de 2023. São 112 páginas, brochura 14 por 21 centímetros, ISBN 978-65-5921-566-9. A capa é de André Hellmeister: um veado de galhada grande em fundo amarelo, com o título entalhado nos chifres. A editora chama o livro de novela especulativa e avisa o tom: cinismo e sarcasmo, questões raciais, sexuais e de gênero numa balança desequilibrada.
O que a forma muda na leitura
Renato, na sinopse da editora e em resumos de imprensa, é um adolescente não binário de Santa Catarina, ligado a jogos, em conflito com pais conservadores e com uma irmã trans. O ato que passa a defini-lo é o assassinato do presidente. A estrutura joga para o leitor a pergunta que o Estado de Minas formulou na véspera do lançamento: herói, terrorista ou outra coisa que esses dois rótulos não cobrem. A editora ainda usa a palavra incel, celibatário involuntário, como uma das hipóteses que o texto põe na mesa, sem carimbá-la como verdade.
Andréa del Fuego, na orelha, descreve o choque de duas vozes: a do adolescente que fetichiza o ódio e a de uma instância que examina os atos dele. As duas, diz ela, são tão instáveis quanto a história recente do país. É um modo útil de ler. O livro não entrega um narrador confiável para traduzir Renato. Entrega o interrogatório.
Por que saiu assim, e não como outro romance longo
Nazarian explicou ao Globo que Fé no Inferno tinha mais de 400 páginas, levara cinco anos e circulara pouco na pandemia. Quis então uma história que pudesse ser lida de uma vez. A forma em diálogos veio dessa pressa de comunicação, não de um exercício de oficina. Ao Estado de Minas, em julho de 2023, disse que se orgulhava de ainda poder ser contestador aos 46 anos, e que não queria ocupar só o lugar de finalista de prêmio.
O ponto de partida é radical de propósito. Um adolescente mata um presidente negacionista. O autor insistiu, na mesma entrevista ao Globo, que a culpa do crime na história não está nos videogames, e que o texto foi ficando menos maniqueísta conforme avançava. A retórica autoritária do período aparece absorvida na fala do personagem, não só denunciada de fora.
Cinema, teatro e o que já foi vendido
Em março de 2024, a coluna de Ancelmo Gois no Globo registrou a venda dos direitos para cinema e teatro à produtora argentina 996 Films. A mesma nota dizia que uma versão teatral brasileira estava em pré-produção, com direção de Fernanda D'Umbra e Pedro Goifman no papel. Isso é compra de direito e anúncio de preparação, não estreia confirmada. Tratar o livro como filme já feito seria adiantar o que a nota não confirma.
Para quem chega de Neve Negra ou de Fé no Inferno, a diferença é de escala e de ferramenta. Aqui não há neve, nem memória de 1915, nem quinhentas páginas de atmosfera. Há uma voz adolescente, um interrogador e um crime político imaginado no Brasil recente. A novela serve a quem quer o Nazarian mais seco, e também a quem estuda diálogo como única fonte de informação numa narrativa.
A edição corrente é a brochura da Companhia das Letras. Há ebook, mas é o mesmo texto, não outro livro. O volume impresso de 112 páginas é o objeto que a editora e a Amazon tratam como a obra.





