Mastigando Humanos troca a família humana por um jacaré que pensa. O bicho vive no esgoto de uma cidade grande, frustrado, faminto e irônico, e usa a boca tanto para morder quanto para falar da própria condição. A lenda urbana dos jacarés na galeria vira narrador. Em volta dele há ratos, sapos e outras criaturas absurdas. O romance mistura música brega, literatura gótica, biologia e um erotismo animal, no tom que a época de lançamento chamou de psicodélico.
A primeira edição saiu pela Nova Fronteira em 2006, com cerca de 224 páginas. O Skoob registra o ISBN 978-85-209-1928-6 para essa publicação inicial, subtítulo “um romance psicodélico”, ilustrações de Marco Túlio. Foi o quarto romance de Nazarian, depois de Olívio, A Morte Sem Nome e Feriado de Mim Mesmo. A resenha de Suênio Campos de Lucena no Rascunho, em outubro de 2006, já notava o salto: saíam as relações humanas dos livros anteriores e entrava um réptil cômico.
Por que o livro atravessou a escola
Anos depois, Mastigando Humanos deixou de ser só um romance de nicho. Entrou no Programa Nacional Biblioteca na Escola e, em 2013, virou leitura obrigatória do vestibular da Universidade Estadual da Paraíba. Essa adoção explica por que o título ainda aparece em busca de estudante, não só de leitor de horror. O livro que parecia underground ganhou lista de prova.
Houve também circulação fora do Brasil. A Wikipédia e as fichas de editora registram edição espanhola, pelas Ediciones Ambulantes, e italiana, pela La Linea, em 2013. Não são o mesmo objeto da brochura brasileira à venda hoje, mas mostram que o jacaré saiu do catálogo só nacional.
A edição que está na Amazon
O exemplar corrente na Amazon brasileira é da Record, ISBN 978-85-014-0419-0, com o jacaré verde e rosa da capa e o logo da editora. Não é a capa amarela da Nova Fronteira, aquela com letras feitas de objeto e a linha “um romance psicodélico”. O texto é o mesmo romance. A casa e o projeto gráfico mudaram. Em nota de uma edição revista, o autor conta que reviu o livro em maio de 2013 sem reescrevê-lo por inteiro: correções, não outro enredo. Quem compra a Record não está comprando um segundo livro com outro final.
A orelha dessa linha editorial insiste na fome como piada e como ameaça. O aviso é meio literal. O romance quer ser engolido e também quer morder. Não é fábula infantil de animal falante. O humor é ácido, o corpo é grotesco, e a reflexão do jacaré sobre ter perdido o reinado da Terra é o motor, não um apêndice.
Onde ele fica na obra
Para quem chega pelos livros da Companhia das Letras, Mastigando Humanos é o Nazarian anterior à fase dos prêmios de 2021: mais solto, mais pop, menos histórico. É também o título que a escola e o vestibular fixaram, o que Fé no Inferno e Veado Assassino não fizeram. Serve de porta de entrada para quem aguenta grotesco e não quer começar por um romance de 376 páginas.
Não promete lição de redação de vestibular, embora tenha sido cobrado como leitura. O que a prova usou foi o livro que já existia, com jacaré, esgoto e sarcasmo. A edição prática para comprar no Brasil, hoje, é a da Record. A da Nova Fronteira circula sobretudo em sebo.





