Neve Negra começa numa volta para casa que já está errada. Na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, um pintor de sucesso regressa à Serra Catarinense. Passa boa parte do tempo em feiras e exposições no exterior. A família dorme enquanto a neve cai. O pesadelo começa quando o filho de sete anos acorda. A Companhia das Letras apresenta o livro como suspense psicológico e drama familiar, e também como um dos poucos romances brasileiros que usam a neve de verdade, não como cenário importado.
A edição saiu em 28 de julho de 2017. Tem 248 páginas, brochura 14 por 21 centímetros, ISBN 978-85-359-2946-1. A capa é quase toda neve e pinheiro, com o título em bloco preto e o nome do autor em branco rasgado. Não é a capa amarela de Veado Assassino nem o vermelho de Fé no Inferno. É o primeiro romance dele pela Companhia das Letras, e o visual marca essa mudança de casa.
De onde veio o encargo
No blog Jardim Bizarro, Nazarian conta a origem sem mistério de marketing. Havia uma proposta, ligada à RT Features e a Joca, de uma coleção de terror literário, depois chamada de pós-terror. A produtora ficaria com os direitos de cinema. A Companhia teria preferência de publicação. O combinado era um texto dentro do tema, com tamanho de romance, escrito em cerca de um ano. Ele entregou antes do prazo. A coleção não seguiu. A editora gostou do livro e o lançou sozinho, no segundo semestre de 2017.
Esse dado muda a leitura de quem chega só pelo rótulo de terror. O livro não nasceu de um pedido genérico de “história assustadora”. Nasceu de um encargo com metragem, tema e um olho no cinema. O autor também escreveu que escolheu a neve rara no Brasil como cenário inédito, e que o título, para ele, ficou aquém de outros que já tinha inventado. Ainda assim é o título que ficou, e é por ele que o livro é buscado.
O medo que o texto realmente usa
A sinopse oficial fala em paranoias antigas da paternidade. O pai não reconhece o filho. Duvida se o menino é dele. Sente que há algo errado em casa. O horror, portanto, é doméstico e psicológico, não um monstro solto na serra. O humor negro que a editora atribui a Nazarian entra como contrapeso, não como alívio de comédia. Quem espera gore de capa de banca vai achar outra temperatura. Quem espera um drama familiar com a neve funcionando como pressão vai achar o livro no lugar certo.
Cristóvão Tezza escreveu sobre o romance na Folha, e o autor aponta esse texto como o melhor que o livro recebeu. Houve mais entrevista do que resenha, segundo o próprio balanço dele no blog. Isso ajuda a calibrar a expectativa. Neve Negra não é o título dos prêmios de 2021. É o livro que abriu a porta da Companhia das Letras e que ainda aparece, na biografia curta da editora, ao lado de Fé no Inferno como os dois romances dele na casa.
Como ele se separa dos outros
Depois deste vieram o romance histórico-político de 2020 e a novela de diálogos de 2023. Neve Negra permanece o mais fechado em atmosfera: uma casa, uma família, um clima, um filho. Não pede conhecimento do genocídio armênio nem do noticiário de um mandato presidencial. Pede disposição para desconforto doméstico.
Os direitos de cinema ficaram no horizonte da RT Features desde a origem do projeto. Não há, em fonte pública estável, estreia de filme concluído a partir deste livro. O objeto que existe e se compra é o romance de 2017. A edição à venda na Amazon é a brochura da Companhia das Letras, a mesma da ficha técnica da editora.





