Santiago Nazarian escreveu A Morte Sem Nome antes de Olívio, mas inscreveu o segundo no concurso da Fundação Conrado Wessel, em 2003, porque o considerava mais tradicional. O prêmio máximo daquele ano publicou Olívio e fechou o contrato com a editora. O romance que tinha vindo primeiro na mesa ficou para 2004.
Quem busca o nome hoje raramente para nesse estreia. O rastro mistura o rótulo que ele mesmo usa, existencialismo bizarro, com tradução, roteiro e livros que trocam de endereço: Planeta, Nova Fronteira, Record, Companhia das Letras, Rua do Sabão. A pergunta prática é por onde entrar numa obra que muda de tom sem largar o sarcasmo.
Quem é Santiago Nazarian
Nazarian nasceu em São Paulo em 12 de maio de 1977. É filho do artista plástico Guilherme de Faria e da escritora Elisa Nazarian. Formou-se em Publicidade e Propaganda pela Fundação Armando Alvares Penteado, a FAAP. A biografia pública de antes do primeiro contrato não é de gabinete: vendedor de livraria, redator de publicidade, professor de inglês, textos de disque-sexo e uma passagem por body art. Esse chão aparece depois na ficção, que não finge distância de pop, trash e corpo.
A Wikipédia em português o classifica entre brasileiros de ascendência armênia. Ao falar de Fé no Inferno, ele próprio disse que a figura do senhor armênio nos Jardins parte, em boa medida, da memória dos avós. O dado familiar não é enfeite: é o elo entre a casa e o romance que, em 2021, o colocou na lista curta do Jabuti e do Oceanos e no segundo lugar do Machado de Assis, da Biblioteca Nacional.
Em 2002, ainda sem livro nas livrarias, ele já tinha passado pelo Programa do Jô. A televisão chegou antes da estante. O circuito literário veio no ano seguinte, com o Wessel, e de novo em 2007, quando o júri do Hay Festival, em Bogotá, então Capital Mundial do Livro, o incluiu entre 39 escritores latino-americanos com menos de 39 anos. Em 2023, numa matéria do Estado de Minas sobre Veado Assassino, o retrato público era outro: cabelo grisalho comprido, tatuagem nos braços, lápis preto nos olhos. Ele disse ali, aos 46 anos e com vinte de carreira, que não queria ser só “o tiozão finalista de Jabuti”.
O que ele chama de existencialismo bizarro
O projeto, nas palavras dele e nas apresentações de editora, junta questões antigas de identidade, morte e mal-estar com cultura pop, horror e deboche. Não é um selo comercial. É o modo de explicar por que um romance pode falar de clássico existencialista e de lenda urbana no mesmo fôlego, sem pedir licença ao gênero da prateleira.
Alguns marcos ajudam a ver a curva, sem transformar a página num inventário:
- Olívio (Talento, 2003) saiu pelo Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura, com publicação e contrato no pacote.
- Mastigando Humanos (Nova Fronteira, 2006) põe um jacaré existencialista nos esgotos. Depois entrou no PNBE e na lista do vestibular da UEPB em 2013. Houve edição da Record e traduções para espanhol e italiano.
- Neve Negra (Companhia das Letras, 2017) é terror psicológico na Serra Catarinense, numa noite de neve.
- Fé no Inferno (Companhia das Letras, 2020) cruza o Brasil de 2017 com o genocídio armênio de 1915.
- Veado Assassino (Companhia das Letras, 2023) é uma novela só de diálogos: um adolescente mata um presidente de extrema-direita.
- Caramelo Salgado (Rua do Sabão, 2026) se passa no Halloween de 1987, na Serra da Mantiqueira, com dois primos.
Entre esses títulos há mais livro do que a lista mostra. Feriado de Mim Mesmo (Planeta, 2005), O Prédio, o Tédio e o Menino Cego (Record, 2009), Pornofantasma (Record, 2011), Garotos Malditos (Record, 2012), Biofobia (Record, 2014), o infantil A Festa do Dragão Morto, com Rogério Coelho, pela Melhoramentos em 2019, e o independente O Príncipe Precoce, em 2022. O que muda de fato é o grau de exposição e a casa editorial, não um método único vendido em aula.
Quem lê terror brasileiro de outra linhagem encontra um mapa diferente em André Vianco, mais preso a vampiros, fantasia de grande tiragem e sagas. Nazarian fica no lado oposto dessa estante: menos série fechada de criaturas, mais família, cidade e desconforto.
Tradução, roteiro e o outro ofício
A apresentação da Companhia das Letras o descreve como tradutor de dezenas de livros. A ficha de Caramelo Salgado, mais recente, fala em mais de uma centena, e cita obra dele vertida para inglês, espanhol, italiano, sérvio, alemão, armênio e húngaro. O caso mais fácil de verificar na própria editora é Frankenstein, de Mary Shelley, em edição da Zahar com tradução assinada por ele. Traduzir, nesse percurso, não é nota de rodapé. É o trabalho que segue enquanto o romance próprio demora anos.
No audiovisual o currículo público é curto. Em 1997 ele dirigiu e roteirizou o curta Ame o Garoto que Segura a Faca. Em 2009 coassinou o longa Um Homem Qualquer, de Caio Vecchio. Em 2015 criou e roteirizou Passionais, série da Globosat sobre crimes passionais. O hábito de pensar cena ajuda a ler livros que cabem numa sentada ou que se sustentam só em fala, como Veado Assassino, de 112 páginas, inteiro em diálogo.
Prêmios, escola e o que ficou registrado
Mastigando Humanos saiu do circuito estreito quando entrou no Programa Nacional Biblioteca na Escola e virou leitura obrigatória do vestibular da Universidade Estadual da Paraíba em 2013. Garotos Malditos recebeu, em 2010, bolsa de criação do programa Petrobras Cultural. A Festa do Dragão Morto entrou na seleção de premiados de 2019 da Cátedra Unesco de leitura para a infância.
O ciclo de 2021 é outro patamar, e convém ser exato. Com Fé no Inferno, Nazarian foi finalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio Oceanos. No Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, ficou em segundo lugar. Não ganhou o Jabuti. A Companhia das Letras passou a apresentar o livro com esses resultados, e o Globo registrou o anúncio dos vencedores da Biblioteca Nacional em novembro de 2021. Ao Globo, sobre o livro seguinte, ele contou que Fé no Inferno levou cerca de cinco anos, passou de 400 páginas, saiu na pandemia e circulou pouco.
Neve Negra tem uma origem mais específica do que o rótulo de terror deixa ver. No blog Jardim Bizarro, Nazarian conta que o livro nasceu de uma proposta ligada à RT Features para uma coleção de terror literário. A coleção não seguiu, a Companhia publicou o romance sozinho em 28 de julho de 2017, e os direitos de cinema ficaram associados à produtora. São 248 páginas. O cenário é a Serra Catarinense, neve rara no Brasil, um pintor que volta para casa e um filho de sete anos.
Onde o trabalho aparece agora
O diário público é o blog Jardim Bizarro, no ar há anos, com retrospectiva de cada livro, capa e o andamento da carreira. No Instagram, a conta @nazarians se apresenta como escritor e tradutor e acompanha lançamento, oficina e a circulação de Caramelo Salgado. Há também página no Facebook. As entrevistas longas em vídeo estão em canais de terceiros: TV Fórum, UBE Cast e TikTal, entre outros. Não concentram a obra num canal dele.
Oficinas curtas de publicação e de estrutura de romance aparecem nos anúncios que ele mesmo faz no Instagram: turmas por videochamada, com leitura de projeto. Não substituem os livros e não têm uma página institucional estável fora do perfil. Servem para ver o outro lado do ofício. Além de publicar, ele lê manuscrito alheio e discute escaleta.
Fé no Inferno, Neve Negra e Veado Assassino seguem no catálogo da Companhia das Letras. Mastigando Humanos circula em edição da Record. Caramelo Salgado saiu pela Rua do Sabão em 27 de maio de 2026. A obra não cabe num único gênero de livraria, e é essa troca de registro que o nome carrega quando alguém o procura.






