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Barão de Itararé

Apporelly

Nascimento: 1895 Rio Grande, RS
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Jornalista, escritor e humorista gaúcho, criador do jornal A Manha e do título Barão de Itararé, referência pioneira da sátira política no Brasil.

Barão de Itararé é o nome que Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895–1971) inventou para si em 1930 e que terminou maior do que o próprio batismo. Jornalista, escritor e humorista, ele fundou o semanário A Manha, transformou a sátira política em leitura popular e deixou um repertório de frases curtas que continuam sendo repetidas sempre que o assunto é rir do poder.

Quem pesquisa o nome costuma chegar por caminhos diferentes: uma máxima solta, uma aula de história, o jornal A Manha, os Almanhaques ou as biografias que reconstruíram sua vida. Em comum, esses leitores querem entender como um gaúcho de origem humilde se tornou, ao mesmo tempo, o barão da piada e um dos jornalistas mais perseguidos de seu tempo.

Quem foi Apparício Torelly, o homem por trás do título

Apparício Torelly nasceu em 29 de janeiro de 1895, em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. A versão de que teria vindo ao mundo no Uruguai, a bordo de uma diligência, também circulou durante décadas e nunca foi completamente esclarecida — um começo adequado para quem viveria de histórias. A infância foi difícil: perdeu a mãe ainda bebê, foi criado por um avô no Uruguai e depois enviado a um internato jesuíta em São Leopoldo, onde estudou entre 1905 e 1911.

O humor apareceu cedo. Aos 13 anos, criou o jornalzinho O Capim Seco para satirizar a disciplina dos padres, e teve a primeira edição apreendida pelo reitor. Mais tarde, cursou Farmácia e Medicina sem concluir nenhum dos dois. Em 1916, publicou Pontas de Cigarro, livro de poemas sobre a falta de dinheiro, assinado com o pseudônimo Apporelly. Também colaborou com o diário Última Hora e com jornais do interior gaúcho, em cidades como Bagé, Pelotas e São Borja.

Um acidente vascular cerebral sofrido em 1918, durante as férias na fazenda de um tio, interrompeu os estudos de Medicina. A hemiplegia que o acompanhou pelo resto da vida ajudou a explicar a mudança para o Rio de Janeiro em 1925, em busca de um clima mais quente.

  • Nascimento em 29 de janeiro de 1895, em Rio Grande (RS); morte em 27 de novembro de 1971, no Rio de Janeiro
  • Primeiro jornal aos 13 anos, o apreendido O Capim Seco
  • Estreia literária em 1916 com Pontas de Cigarro, assinado Apporelly
  • Fundação do semanário A Manha em 13 de maio de 1926
  • Criação do título de Barão de Itararé em 1930
  • Vereador eleito pelo PCB em 1947 e cassado em 1948

O Rio de Janeiro e o nascimento d'A Manha

No Rio, Torelly entrou no jornal O Globo em 1925 e, no fim do mesmo ano, passou a assinar a coluna "Amanhã tem mais" no recém-criado A Manhã, do jornalista Mário Rodrigues — pai de Nelson Rodrigues. Os sonetos de humor dedicados a políticos da época fizeram sucesso, e em 13 de maio de 1926 ele lançou o próprio semanário: A Manha, com "h" e sem til, imitando a tipologia do jornal concorrente para deixar claro que se tratava de uma paródia. Ao lado do título, o lema que virou marca: "Quem não chora, não mama".

O jornal satirizava autoridades, costumes e instituições, e fez escola. Personagens do mundo político ganhavam apelidos que ficavam — o ministro Gustavo Capanema virava "Gustavo Capa Anêmica", o general Góes Monteiro aparecia como "Gás Morteiro". A Manha teve seus períodos mais criativos entre 1926 e 1935 e, depois, entre 1945 e 1955, com edições esporádicas até 1959. No intervalo, as interrupções foram impostas por prisões e pela censura do Estado Novo.

A batalha que não houve e o título de nobreza

O nome Barão de Itararé nasceu de uma piada histórica. Durante a Revolução de 1930, a imprensa anunciava uma batalha sangrenta na cidade de Itararé, na divisa de São Paulo com o Paraná, entre tropas fiéis a Washington Luís e as forças de Getúlio Vargas. A batalha nunca aconteceu: houve acordo, junta governativa e acomodação de cargos. Torelly, que esperava reconhecimento e ficou de fora da partilha, resolveu conceder a si mesmo um título.

Primeiro apareceu como Duque de Itararé, nas páginas d'A Manha. Semanas depois, anunciou a "prova de modéstia": passava a barão. O nome homenageava "a batalha que não houve", e a explicação que ele mesmo dava — "se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada" — resumia o personagem.

Prisões, política e a vereança cassada

O humor do Barão tinha consequências. Em 1934, fundou o Jornal do Povo, que durou dez dias e publicou em fascículos a história de João Cândido, líder da Revolta da Chibata. Em represália, foi sequestrado e espancado por oficiais da Marinha nunca identificados. De volta à redação, pendurou na porta a placa "Entre sem bater" — ironia que atravessaria sua biografia.

Em 1935, participou da fundação da Aliança Nacional Libertadora e foi preso por ligações com o Partido Comunista Brasileiro, então clandestino. Passou cerca de um ano e meio na prisão e aparece nas Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. Durante o Estado Novo, foi preso outras vezes, por períodos menores.

A política partidária veio depois. Em 1947, foi eleito vereador no então Distrito Federal pelo PCB, com 3.669 votos, defendendo o voto dos analfabetos e denunciando abusos contra povos indígenas. O mandato durou pouco: em janeiro de 1948, todos os vereadores do partido foram cassados. A Manha comentou com a frase que se tornaria outra de suas marcas: "Um dia é da caça... os outros da cassação". Opositor declarado de Getúlio Vargas desde os tempos de colégio, em Porto Alegre, o Barão transformou a aversão ao poder em ofício.

Almanhaques, máximas e a obra que atravessou o século

Com dificuldades para relançar A Manha, Torelly buscou outros formatos. Em 1949 publicou a primeira edição do Almanhaque, paródia dos almanaques tradicionais que reunia crônicas, passatempos, anedotas e as máximas no rodapé. Novas edições saíram em 1955. As frases curtas garantiram a sobrevivência do nome: "O erro do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta"; "Diz-me com quem andas e eu te direi se vou contigo"; "Anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças que ele mesmo cometeu".

Em 1985, a Editora Record publicou Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, coletânea organizada por Afonso Félix de Sousa com prefácio de Jorge Amado — que alcançou rapidamente quatro edições. Em 2006, a Editora UFPR lançou Zubblemend to Alle... manha, edição que reúne e estuda a produção dele para leitores de hoje. Na literatura brasileira, poucos humoristas migraram tão bem do jornal para o livro de frases.

Os últimos anos: ciência, astrologia e o horóscopo biônico

Entre 1956 e 1958, escreveu para o quinzenal Paratodos, de Álvaro Moreyra. Em 1963, viajou à China a convite do governo chinês. No retorno, após o suicídio da segunda mulher, deixou de trabalhar e passou a se dedicar ao estudo da numerologia, das pirâmides do Egito Antigo e da astrologia — campo em que desenvolveu o que chamava de "horóscopo biônico". Viveu os últimos anos com a pensão da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro e morreu dormindo, em seu apartamento no bairro de Laranjeiras, em 27 de novembro de 1971.

O legado do Barão de Itararé hoje

O nome do Barão segue em circulação por vários caminhos. Uma fotografia de 1966 o registra ao lado do poeta Manuel Bandeira, um dos muitos artistas que admiravam sua verve. A TV Brasil relembrou sua vida em programas de 2011 e 2014, e suas máximas continuam citadas em coberturas políticas e aulas de história. O Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, fundado por ativistas e movimentos sociais, adotou o nome dele como referência na luta pela democratização da comunicação no país.

Para quem acompanha a política brasileira, o Barão permanece atual porque seu alvo nunca foi uma pessoa só: era o funcionamento do poder. A piada era o método, e a frase curta, a arma. Os livros que reconstroem sua trajetória e os fac-símiles de seus almanaques mostram que o humor de 1930 ainda explica muita coisa sobre o Brasil de hoje.

Perguntas frequentes sobre o Barão de Itararé

Qual é o nome verdadeiro do Barão de Itararé?

Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly. Ele também assinava como Apporelly e adotou o título de Barão de Itararé a partir de 1930.

Por que ele escolheu o nome Itararé?

Em homenagem à batalha que nunca aconteceu na cidade de Itararé durante a Revolução de 1930. Primeiro ele se declarou Duque; depois, "como prova de modéstia", passou a barão.

O que foi o jornal A Manha?

Um semanário satírico criado em 13 de maio de 1926, que misturava humor, crítica política e crônica de costumes. Circulou com interrupções até 1959 e é considerado o mais popular jornal de humor da história da imprensa brasileira.

Quais livros do Barão de Itararé podem ser encontrados hoje?

O fac-símile do Almanhaque de 1949, publicado pela Imprensa Oficial, e biografias como As Duas Vidas de Aparício Torelly, de Claudio Figueiredo, A manha do Barão, de Ipojuca Pontes, e Barão de Itararé – Herói de Três Séculos, de Mouzar Benedito.

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Almanhaque d'A Manha
Almanhaque d'A Manha
Almanaque satírico lançado pelo Barão de Itararé em 1949, com crônicas, máximas, anedotas, jogos e passatempos que parodiam o formato tradicional.
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A manha do Barão
A manha do Barão
Peça teatral de Ipojuca Pontes que reconstrói no palco a trajetória de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, e do jornal A Manha.
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