Carlos Orsi criou a seção "Ano 2000" no Grupo Estado em 1997, quando produzir conteúdo de ciência exclusivamente para a internet ainda era uma aposta rara no Brasil. Quase três décadas depois, o jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP é fundador e diretor de comunicação do Instituto Questão de Ciência (IQC) e assinou a editoria da Revista Questão de Ciência durante os oito anos de atividade da publicação. Entre a coluna "Olhar Cético", que manteve na revista Galileu, e os livros sobre milagres, astrologia e negacionismo, sua reputação pública se construiu em torno de uma pergunta prática: o que distingue ciência de algo que apenas se apresenta como ela.
Quem procura o nome dele chega por caminhos diferentes. Uns querem entender a ligação de Carlos Orsi com o instituto que critica o financiamento público de terapias sem comprovação; outros buscam o autor de O Livro dos Milagres e dos livros escritos com Natalia Pasternak, como Ciência no Cotidiano, vencedor do Prêmio Jabuti de 2021, e Contra a Realidade. Este perfil reúne formação, atuação profissional, obras e projetos que explicam por que ele virou uma referência no debate brasileiro sobre evidência científica.
Quem é Carlos Orsi
Carlos Orsi Martinho nasceu em 1971, em Jundiaí, no interior de São Paulo, e se formou em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). A escrita literária apareceu cedo: desde os anos 1990 ele publica contos e romances de ficção científica, fantasia e horror, com textos em antologias brasileiras e estrangeiras.
A carreira jornalística seguiu outro trilho. Orsi foi editor de ciência, saúde e meio ambiente do Portal Estadão e tornou-se nome conhecido entre leitores de pensamento crítico pelas colunas que assinou em dois veículos: "Telescópio", no Jornal da Unicamp, e "Olhar Cético", na revista Galileu, espaço em que analisava pseudociências e temas polêmicos sob a ótica científica. O trabalho nessas colunas ajudou a formar o repertório que mais tarde apareceria em seus livros.
Do "Ano 2000" ao Instituto Questão de Ciência
A seção "Ano 2000", lançada por ele no Grupo Estado em 1997, é apontada como uma das primeiras iniciativas de divulgação científica produzidas exclusivamente para a internet no Brasil. Duas décadas depois, essa experiência se somou à de outros profissionais para dar origem ao Instituto Questão de Ciência, fundado em 22 de novembro de 2018, em São Paulo. Orsi integra o grupo de fundadores e ocupa a diretoria de comunicação do instituto.
O IQC nasceu com uma missão específica: levar evidências científicas para decisões de políticas públicas e questionar o uso de recursos públicos em práticas sem comprovação. A criação teve apoio de nomes como o médico Drauzio Varella, o patologista Paulo Saldiva e o físico Marcelo Knobel, além do britânico Edzard Ernst, especialista em análise de evidências sobre terapias alternativas, que palestrou no evento de lançamento. Na prática, o instituto atua em três frentes: educação científica, jornalismo científico e atuação institucional em defesa de políticas baseadas em evidências.
O que o instituto defende
- Políticas públicas baseadas em evidências, com critérios claros de comprovação;
- Crítica ao financiamento estatal de práticas sem lastro científico adequado;
- Jornalismo científico com checagem de fatos e contexto;
- Educação para o pensamento crítico e enfrentamento da desinformação.
Revista Questão de Ciência: oito anos no comando da editoria
Orsi foi editor-chefe da Revista Questão de Ciência, publicação digital do IQC dedicada a reportagens, análises e ensaios sobre ciência e suas interfaces com a política, a saúde e a cultura. Sob sua editoria, a revista denunciou a presença de terapias sem comprovação no Sistema Único de Saúde, abriu espaço para a psicologia baseada em evidências e publicou, durante a pandemia de covid-19, uma cobertura crítica das pesquisas iniciais sobre cloroquina e tratamentos ditos precoces.
Em 29 de junho de 2026, o IQC decidiu interromper a atualização da revista. No editorial de encerramento, assinado por Orsi, o instituto explicou que o acervo de oito anos permaneceria disponível online e que os esforços seriam concentrados em projetos como o observatório de políticas científicas e a plataforma de dados de vacinação. A decisão marcou o fim de um ciclo, não o afastamento do jornalista do tema: os textos continuam acessíveis e ele segue na diretoria do instituto.
Os livros de divulgação científica
A obra escrita de Orsi ocupa dois territórios. No primeiro, o da divulgação científica, ele investiga crenças populares com ferramentas de história, arqueologia, linguística e medicina. O Livro dos Milagres, lançado em 2011 e reeditado em 2021 pela Editora Unesp, examina relatos de possessão, ressurreição, relíquias de sangue e o poder da oração à luz do que a pesquisa já sabe sobre cada fenômeno. Pura Picaretagem, escrito com o físico Daniel Bezerra em 2013, mira o uso de jargão quântico para vender tratamentos e produtos sem base científica. O Livro da Astrologia, publicado em 2015, reúne a história da prática e as evidências acumuladas contra suas previsões. Negacionismo & Desafios da Ciência, de 2022, percorre as raízes históricas da recusa de fatos científicos e discute como enfrentá-la.
Na segunda frente, a das parcerias, estão os títulos escritos com Natalia Pasternak: Ciência no Cotidiano (Editora Contexto, 2020), que venceu o Prêmio Jabuti de Ciências em 2021; Contra a Realidade (Papirus, 2021), sobre negação da ciência; e Que Bobagem! (Contexto, 2023), dedicado a práticas pseudocientíficas de grande circulação. Em 2026, sua obra sobre astrologia ganhou edição internacional pela Columbia University Press, com o título What Science Says About Astrology.
Ficção científica, prêmios e a faceta literária
A ficção nunca foi abandonada. Orsi publicou romances como Guerra Justa e Nômade, coletâneas como Campo Total e Outros Contos de Ficção Científica e Mistérios do Mal, além de contos em antologias no Brasil e no exterior, inclusive em inglês, na Ellery Queen's Mystery Magazine. Seu trabalho no gênero recebeu o Prêmio Argos em 2012 e em 2015, concedido a contos de sua autoria.
As duas carreiras se alimentam. A precisão exigida pela divulgação científica convive com a especulação da ficção, e a prática de contar histórias ajuda a explicar por que seus livros de não ficção são reconhecidos pela clareza didática. Em palestras, como a TEDxUSP "Três perguntas contra fake news", apresentada em 2017, ele costuma reduzir a discussão sobre desinformação a perguntas simples de método: como sabemos, com base em quê, e o que mudaria nossa posição diante de uma evidência nova.
Como acompanhar o trabalho de Carlos Orsi
O blog pessoal de Orsi, ativo desde os anos 2000, reúne textos sobre ciência, ceticismo e política. Seu perfil no Instagram concentra publicações mais curtas e comentários sobre o noticiário científico. Quem quer entender o trabalho institucional pode acompanhar o site do IQC e o acervo da Revista Questão de Ciência; quem busca os livros encontra as obras em livrarias, na Amazon e nas páginas das editoras Unesp, Contexto, Papirus 7 Mares, Leya, Editora de Cultura e Draco.
Para quem quer começar a ler, uma ordem possível: Ciência no Cotidiano para entender como o método aparece nas decisões banais; O Livro dos Milagres para ver a investigação aplicada a relatos religiosos; Contra a Realidade para o diagnóstico da negação organizada; e Pura Picaretagem para reconhecer os sinais do discurso pseudocientífico em vendas e tratamentos.






