Eduardo Guimarães (Porto Alegre, 30 de março de 1892 — Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 1928), que assinava Eduardo Guimaraens, é um dos três poetas que formam a chamada trindade simbolista brasileira, ao lado de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. Foi também jornalista, tradutor e, por seis anos, diretor da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Sua poesia chegou a Portugal pelas páginas da revista Orpheu, a mesma que apresentou Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro ao público leitor, e sua obra mais conhecida, A Divina Quimera, publicada em 1916, continua sendo reeditada mais de um século depois.
Quem procura Eduardo Guimarães encontra, ao mesmo tempo, o poeta de sonetos e versos longos, o cronista da imprensa gaúcha do início do século 20 e o tradutor que verteu Dante para o português antes de completar 30 anos. Essas três frentes explicam por que seu nome aparece tanto em estudos sobre o Simbolismo quanto em histórias do livro e da leitura no Brasil.
Quem foi Eduardo Guimarães
Filho do português Gaspar Eduardo da Costa Guimarães, que trabalhava na redação do jornal A Federação e participava da Sociedade Partenon Literário, e da brasileira Balbina da Silveira Guimarães, Eduardo cresceu em uma casa de letras. Estudou no Colégio Rio-Grandense e no Ginásio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Aos 16 anos, enviou o soneto "Aos Lustres" ao Jornal da Manhã e precisou convencer o editor Marcelo Gama de que era mesmo o autor da peça — episódio lembrado como o início de sua vida pública nas letras.
Da imprensa de Porto Alegre à revista Orpheu
A partir de 1911, colaborou com periódicos da capital gaúcha, entre eles Jornal do Comércio, Folha da Manhã, Diário, A Federação e Correio do Povo. Entre 1912 e 1913 viveu no Rio de Janeiro, então capital federal, escrevendo para A Hora, Rio-Jornal, A Imprensa e Boa Hora e para a revista Fon-Fon!, publicação que reunia a vida literária e mundana da cidade.
Foi na redação da Fon-Fon! que nasceu a amizade com Ronald de Carvalho e com o português Luís de Montalvor. A ligação rendeu frutos editoriais: poemas de Eduardo Guimarães saíram no segundo número da revista Orpheu, em 1915 — "Sobre o cisne de Stéphane Mallarmé", "Folhas mortas" e "Sob os teus olhos sem lágrimas". A revista, que circulou por poucos números, tornou-se um marco do modernismo português e ligou o nome do poeta gaúcho à geração de Pessoa e Sá-Carneiro.
A Divina Quimera e o Simbolismo brasileiro
Em 1916, de volta ao Rio de Janeiro para publicar A Divina Quimera, o poeta também estudou o sistema de catalogação da Biblioteca Nacional — experiência que mais tarde pesaria em sua carreira de bibliotecário. O livro nasceu sob influência declarada de Dante e de Gabriele D'Annunzio: do primeiro, a ideia do amor eterno e espiritualizado; do segundo, a atmosfera decadentista e aristocrática.
A recepção crítica destacou a riqueza métrica da obra. O crítico Alfredo Bosi observou que A Divina Quimera explora possibilidades de verso pouco comuns na poesia brasileira da época, combinando o alexandrino, o decassílabo e até versos bissílabos. Ao lado de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, Eduardo Guimaraens passou a ser citado como a terceira ponta da trindade simbolista do país.
Antes dela, o poeta já havia publicado Caminho da Vida (1908), seu primeiro livro de poesias, e a peça Arabella e Athanael — conto azul em cinco atos, de 1912. Depois da Divina Quimera, ainda deixou o drama A Mulher de D. Juan, publicado postumamente em 1929, e a tragédia Núpcias de Antígone.
As revistas e a Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul
De volta a Porto Alegre, Eduardo Guimaraens dirigiu duas revistas fundadas na cidade: o Mensário do Sul, entre 1917 e 1918, e a Máscara, de 1918 a 1928, publicação que documentou a vida cultural e social gaúcha daquele período.
Em 1922 assumiu a direção da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, onde havia entrado anos antes como auxiliar técnico. Permaneceu no cargo até 1928, ano de sua morte, período em que a instituição consolidou seu papel de guardiã do acervo bibliográfico gaúcho.
O tradutor de Dante, Tagore e Jammes
A obra de tradutor é uma das faces mais consistentes de sua produção. Em 1920 publicou, em formato de plaquete, o Canto Quinto do Inferno, de Dante Alighieri, traduzido "conforme o ritmo" do original — tradução reeditada postumamente em 1929.
Nos anos seguintes vieram Poemas Escolhidos e Adaptados de Rabindranath Tagore (1925), o romance Lourença Albani, de Paul Bourget (1926), e O Romance de Laura, de Francis Jammes (1927). O poeta também deixou traduções inéditas de As Flores do Mal, de Baudelaire, e de As Festas Galantes, de Verlaine, além de seleções de poesia heineana e hispano-americana.
Família, morte e legado
Casou-se em 1921 com Etelvina Braga Barreto, que aparece nos documentos da época como sua musa. Teve dois filhos, Carlos Rafael Guimarães, que se tornou escritor e jornalista, e Dante Gabriel. O sobrenome que adotou na literatura, Guimaraens, foi transferido aos filhos, registrados com essa grafia, e é mantido por netos e bisnetos.
Em 1926 adoeceu gravemente. Dois anos depois, viajou ao Rio de Janeiro para tratamento e morreu na cidade em 13 de dezembro de 1928. Sepultado inicialmente no cemitério São João Batista, teve os restos mortais transferidos para Porto Alegre em 1934.
A memória pública do poeta se sustentou em instituições: é patrono da cadeira 38 da Academia Rio-Grandense de Letras e foi homenageado como patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 1969. Marcos que ajudam a entender por que seu nome atravessou o século 20.
Onde ler Eduardo Guimarães hoje
Boa parte da obra segue acessível em edições da Libretos, editora que publica o projeto Eduardo Guimaraens mantido por netas e netos do poeta. A produção recente reúne três títulos distintos: a nova edição de A Divina Quimera, de 2025, com documentos do acervo pessoal, como cartas sobre a publicação original, retratos do poeta e de Etelvina Barreto e o rascunho do poema composto a bordo do Paquete Itapura; Poemas, escrito em francês em 1926 e publicado pela família com tradução de Alcy Cheuiche e Livia Petry; e a edição ampliada de Canto Quinto, de 2021, lançada no sétimo centenário da morte de Dante.
Para quem quer começar, um roteiro curto de leitura:
- Caminho da Vida (1908) — estreia na poesia;
- A Divina Quimera (1916) — obra central, reeditada em 1944, 1978 e 2025;
- O Canto Quinto de Dante (1920) — a tradução que o firmou como tradutor;
- Poemas (1926, publicado em 2018) — a produção em francês descoberta entre os papéis da família;
- Dispersos (2002) — poesia reunida em edição organizada por Maria Luiza Berwanger da Silva.
As três edições contemporâneas da Libretos estão detalhadas nas páginas de projetos abaixo, com informações sobre proposta, público e contexto de leitura. Quem quiser explorar o período literário em que ele atuou pode percorrer a categoria de Literatura do diretório, que reúne outros autores do mesmo campo.




