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Elsie Lessa

Elsie Pinheiro

Nascimento: 1914 São Paulo, SP
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Jornalista e cronista paulista (1914–2000), Elsie Lessa assinou a coluna Globe-Trotter em O Globo por quase cinco décadas e reuniu crônicas em livros como A Dama da Noite.

Elsie Lessa foi a cronista de mais longa carreira do jornal O Globo: entrou na redação como repórter em 1946 e assinou uma coluna sem interrupção de 17 de março de 1952 a 24 de abril de 2000, menos de um mês antes de morrer. Foi nesse espaço, batizado Globe-Trotter, que ela transformou o cotidiano em diário público — cidades, viagens, encontros, lembranças e pequenas cenas do dia a dia narradas com humor fino e observação precisa. Quem procura Elsie Lessa hoje geralmente quer entender como uma repórter paulista se tornou uma das vozes centrais da crônica brasileira do século XX e onde estão seus textos.

Nascida em São Paulo em 1914 e criada em uma família de letras, ela fez carreira no Rio de Janeiro, mudou-se para Portugal em 1985 e morreu em Cascais, em 2000. Deixou uma obra que reúne crônicas de jornal, relatos de viagem, memórias e adaptações de clássicos para jovens leitores.

Quem foi Elsie Lessa

Elsie Pinheiro Lessa nasceu em 5 de abril de 1914, na cidade de São Paulo, filha do tradutor Albertino Pinheiro e de Maria Júlia Ribeiro. Era neta do escritor e gramático Júlio Ribeiro, autor do romance A Carne e patrono da cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras, o que colocou a literatura dentro de casa desde cedo.

Na juventude, quando passou a circular pela vida social carioca, ficou conhecida pela beleza e pela conversa. A imprensa registrou que ela era considerada uma das mulheres mais bonitas do Rio de Janeiro de seu tempo e que o cronista Rubem Braga chegou a segui-la pelas ruas de São Paulo, fascinado pela graça da moça. O episódio virou história repetida entre jornalistas, mas o que interessa é o que veio depois: em vez de se limitar ao papel de musa, Elsie construiu carreira própria na redação.

De repórter a cronista em O Globo

Em 1946, Elsie Lessa foi contratada como repórter de O Globo. Seis anos depois, o diretor-redator-chefe do jornal, Roberto Marinho, pediu que ela revisasse um texto do escritor José Lins do Rego e tentasse ensinar o romancista a datilografar. Ela aceitou a tarefa com uma condição: queria um espaço para publicar suas próprias crônicas.

Roberto Marinho pediu quatro textos de teste. Elsie escreveu, mostrou e teve uma das crônicas publicada no dia seguinte. A primeira saiu em 17 de março de 1952, e a coluna nunca mais parou: por dezesseis anos foi diária, depois passou a quinzenal, às segundas-feiras, no Segundo Caderno, e ainda ganhou página própria em determinadas fases do jornal.

Em 1968, o trabalho de cronista rendeu um prêmio de jornalismo concedido pela Junta de Turismo da Costa do Sol, em Portugal, por um artigo em que descreveu cidades e regiões visitadas durante uma viagem feita em 1966. O reconhecimento veio no mesmo período em que a crônica de jornal já era tratada como gênero literário de primeira linha no país.

Globe-Trotter: um diário feito de crônicas

O nome da coluna vinha da ideia de uma cronista que atravessa o mundo e volta para contar. Elsie escreveu sobre Londres, Lisboa, o Tejo, o Rio de Janeiro e a São Paulo da infância, quase sempre partindo de cenas concretas: um restaurante, uma rua, um amigo, uma conversa ouvida por acaso. Em 1985, mudou-se para Portugal e passou a enviar os textos de lá.

A partir de 1998, a coluna passou a ser assinada apenas com seu nome, sem o título antigo, e seguiu até 24 de abril de 2000. Elsie morreu em Cascais, em 17 de maio de 2000, vítima de um câncer no fígado, aos 86 anos. Nenhum outro escritor manteve um espaço por tanto tempo nas páginas do jornal.

Ela resumia o próprio ofício com franqueza: “No fundo faço um diário. Um dia, quando eu for embora e houver quem goste de histórias, as pessoas podem procurá-las nas minhas crônicas”. A frase, dada ao GLOBO em 1998, explica por que seus textos envelheceram bem: são o registro de uma vida inteira vista de perto.

Os livros de Elsie Lessa

Parte da produção de jornal foi reunida em livros ao longo da carreira, em edições que hoje circulam principalmente entre leitores de crônica e colecionadores:

  • Pelos caminhos do mundo (1950) — primeiro livro da autora, publicado pela editora A Noite.
  • A Dama da Noite (1963) — crônicas, editadas pela Livraria José Olympio.
  • Crônicas de amor e desamor (1973) — reunidas pela editora Francisco Alves.
  • Ponte Rio-Londres (1984) — crônicas de viagem publicadas pela Record.
  • Formoso Tejo meu (1998) — editado em Lisboa pela Pergaminho.
  • Canta que a vida é um dia (1998) — crônicas reunidas pela Razão Cultural.

Além dos livros de crônica, Elsie Lessa assinou adaptações e traduções para o público infantojuvenil. Entre elas está uma versão de Conto de Natal, de Charles Dickens, publicada pela Ediouro na coleção Clássicos Para o Jovem Leitor — um trabalho que mostra outra face de sua escrita, voltada para leitores em formação.

Família, amigos e a roda da crônica

Elsie Lessa foi casada com o escritor e imortal Orígenes Lessa, com quem teve um único filho, o jornalista e escritor Ivan Lessa, que viveu muitos anos em Londres. Mais tarde, casou-se com o também jornalista e escritor Ivan Pedro de Martins.

O escritor Ruy Castro, no livro Ela é Carioca, situou a cronista no time dos grandes: para ele, Elsie tem lugar ao lado dos maiores mestres do gênero na língua portuguesa, como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. A comparação não é gratuita: os quatro compartilharam o mesmo ofício de olhar a vida comum e devolvê-la em texto curto, sem grandiloquência.

A correspondência da família também preserva parte dessa história. O Correio IMS, projeto do Instituto Moreira Salles dedicado a cartas, mantém uma carta que Elsie enviou ao filho em 1980, intitulada “Cabeça e coração”, em que mistura notícias domésticas e reflexões sobre o trabalho de escrever.

Por que as crônicas de Elsie Lessa continuam sendo lidas

Depois da morte do marido e do filho, a obra de Elsie Lessa ganhou novas gerações de leitores em antologias de crônica brasileira, em acervos digitais e em páginas como o Portal da Crônica Brasileira, que reúne textos de jornal e biografias de autores. Suas crônicas continuam sendo usadas como porta de entrada para o gênero justamente porque não dependem do contexto de época para funcionar: falam de amor e desamor, de cidades, de família e de estranhamento, temas que seguem rendendo.

Quem quer conhecer o trabalho dela pode começar pelos títulos que reúnem suas crônicas em livro — de A Dama da Noite a Canta que a vida é um dia — e seguir pelas colunas que ela assinou por quase cinquenta anos. É ali que a repórter de 1946 se transforma, semana a semana, na cronista que fez do próprio cotidiano um documento do Brasil e do mundo que atravessou.

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A Dama da Noite
A Dama da Noite
Coletânea de crônicas de Elsie Lessa publicada em 1963 pela Livraria José Olympio, com capa de Teresa Nicolao e ornatos de Luís Jardim.
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Conto de Natal
Conto de Natal
Adaptação de Elsie Lessa para o clássico A Christmas Carol, de Charles Dickens, publicada pela Ediouro na coleção Clássicos Para o Jovem Leitor.
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