Fernanda Young escreveu seu primeiro romance aos dezessete anos e passou mais de três décadas sem publicá-lo. Quando o livro finalmente chegou às livrarias, em 2019, a autora já era uma das vozes mais reconhecíveis da televisão brasileira: cocriadora de Os Normais, série que escreveu com o marido, o roteirista Alexandre Machado, e que a TV Globo exibiu entre 2001 e 2003, com Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães no elenco.
Entre o humor de casal da TV e os romances que publicou a partir de 1996, Fernanda construiu uma carreira que atravessa roteiro, literatura, poesia, palco e apresentação. Nascida em Niterói, em 1º de maio de 1970, morreu em 25 de agosto de 2019, aos 49 anos, após uma crise asmática, e deixou uma obra que continua sendo lida — e uma presença pública que ainda desperta curiosidade em quem quer entender o que ela escreveu e por que incomodou tanto.
Quem foi Fernanda Young
Fernanda Maria Young de Carvalho Machado nasceu Fernanda Maria Leite Young, em Niterói, no Rio de Janeiro. A formação literária começou cedo e sem método: parte dela veio das travessias de barca e ônibus pela baía de Guanabara, com livros no colo. Interrompeu os estudos ao fim do ensino fundamental, concluiu o médio em um supletivo de seis meses e passou por cursos que não terminou — Letras na Universidade Federal Fluminense, Jornalismo na Faculdade Hélio Alonso e Rádio e Televisão na FAAP, em São Paulo, cidade onde viveu por cerca de quinze anos.
Em 1990 começou a namorar Alexandre Machado; casaram-se em 1993 e se tornaram uma das duplas de roteiro mais produtivas da televisão brasileira. Foi com ele que assinou as séries que a levaram ao centro da comédia nacional, e foi ao lado dele que criou quatro filhos.
Como ela se tornou uma das principais roteiristas da TV brasileira
A estreia como autora veio em 1995, como colaboradora de A Comédia da Vida Privada, na TV Globo. Depois vieram trabalhos em Vida ao Vivo Show e Sai de Baixo, até que, em 2001, ela e Alexandre Machado assinaram Os Normais — a série sobre o casal Vani e Rui que transformou o cotidiano doméstico em matéria-prima de humor e se desdobrou em dois longas-metragens, em 2003 e 2009.
A parceria seguiu em Os Aspones (2004), Minha Nada Mole Vida (2006) e O Sistema (2007). Em 2010, Separação?! rendeu à dupla uma indicação ao Emmy Internacional de melhor comédia; a segunda indicação veio em 2012, com Como Aproveitar o Fim do Mundo. No GNT, escreveu e atuou em Surtadas na Yoga (2013–2014), série sobre três mulheres que fazem ioga para não surtar. Em 2019, assinou Shippados, no Globoplay, sua última série.
Apresentadora: Saia Justa, Irritando Fernanda Young e Confissões do Apocalipse
A televisão também mostrou Fernanda do outro lado da câmera. Entre 2002 e 2004, ela coapresentou o Saia Justa, programa feminino do GNT, ao lado de Rita Lee, Mônica Waldvogel e Marisa Orth. De 2006 a 2010, comandou o programa de entrevistas Irritando Fernanda Young, também no GNT, em que recebia celebridades para conversas sem cerimônia. Em 2012, voltou ao formato com Confissões do Apocalipse, que usava a previsão maia sobre o fim do mundo como ponto de partida para as entrevistas.
Os livros: romance, contos e poesia
Em 1996, Fernanda publicou seu romance de estreia, Vergonha dos Pés, que teve mais de quinze edições e virou peça de teatro. Vieram depois A Sombra das Vossas Asas (1997), Cartas para Alguém Bem Perto (1998), As Pessoas dos Livros (2000) e O Efeito Urano (2001) — os primeiros romances, escritos antes de Os Normais retomá-la para a televisão.
A produção literária seguiu em paralelo ao roteiro: Aritmética (2004), a coletânea poética Dores do Amor Romântico (2005), Tudo que Você Não Soube (2007), O Pau (2009), A Louca Debaixo do Branco (2012), A Mão Esquerda de Vênus (2016) e Estragos (2016), que reúne dezoito contos escritos entre 1987 e 1995, quando ela tinha entre dezesseis e vinte e cinco anos. Em 2018, lançou Pós-F: Para Além do Masculino e do Feminino, sua primeira obra de não ficção. No ano seguinte, saiu Posso Pedir Perdão, Só Não Posso Deixar de Pecar, romance de formação escrito aos dezessete anos e revisado por ela para publicação.
Por onde começar a ler
- Vergonha dos Pés — o romance de estreia, para conhecer a voz que se formou antes da fama na TV.
- Estragos — os contos de juventude, escritos entre 1987 e 1995 e publicados pela primeira vez em 2016.
- Pós-F — a incursão na não ficção, sobre feminino, masculino e a tentativa de superar polarizações.
- Posso Pedir Perdão, Só Não Posso Deixar de Pecar — o primeiro livro que ela escreveu, publicado depois de sua morte.
Uma autora premiada e uma voz reconhecível
Em 2019, Fernanda Young venceu a categoria Crônica do Prêmio Jabuti. O reconhecimento coroava uma escrita que circulou por gêneros diferentes — do romance à poesia, do conto à crônica — e uma presença pública construída também em colunas, entrevistas e declarações que dividiam opiniões. Seu visual marcante e sua franqueza ao falar de temas como depressão, asma e maternidade fizeram dela uma figura difícil de encaixar em qualquer molde.
Essa combinação de obra e personalidade explica parte da busca constante pelo nome dela: há quem chegue pelos livros, quem chegue pelas séries e quem queira apenas rever uma entrevista antiga. Em 2012, o escritor e jornalista Rômulo Zanotto publicou Quero Ser Fernanda Young, romance-homenagem que dialoga com a obra literária e audiovisual da autora — sinal de como sua produção virou referência para outros escritores.
Morte e legado
Asmática desde a infância, Fernanda morreu na madrugada de 25 de agosto de 2019, após uma crise asmática no sítio da família, em Gonçalves, no interior de Minas Gerais. Ela foi sepultada em São Paulo, cidade onde vivia havia cerca de quinze anos. A obra póstuma Posso Pedir Perdão, Só Não Posso Deixar de Pecar chegou às livrarias meses depois, encerrando o percurso que começou quando ela ainda era uma adolescente escrevendo à mão.
Onde encontrar a obra e acompanhar
Os livros de Fernanda Young seguem disponíveis em edições da Rocco, da Globo Livros e da LeYa, e o perfil de autora na Amazon reúne boa parte do catálogo. Para quem quer ouvir a autora, uma boa porta de entrada é a entrevista que ela deu à EBC na Bienal do Livro do Rio de 2017, sobre feminismo e escrita. A Enciclopédia Itaú Cultural mantém um verbete com dados de carreira, e o IMDb lista sua filmografia completa como roteirista e atriz.
Nas redes, o perfil no Instagram permanece como registro de sua presença pública. Quem quiser entender a literatura brasileira feita entre os anos 1990 e 2010 encontra nela uma autora que recusou o lugar de coadjuvante — na televisão, nos livros e na própria biografia.






